A Universidade de São Paulo, aquela mesma que se vende como o cérebro da nação, anunciou com pompa de decreto imperial que reservará vagas para pessoas com deficiência no vestibular. A novidade entra em vigor em 2028. Leia de novo: dois mil e vinte e oito. Antes disso, um Grupo de Trabalho passará cento e vinte dias decidindo as regras, porque evidentemente é preciso quase um semestre de reuniões climatizadas, café institucional e atas em fonte Times New Roman para concluir aquilo que qualquer dona de escola particular resolve numa tarde de quarta-feira: como receber um aluno cadeirante, um cego, um surdo. A solenidade do anúncio é inversamente proporcional à dificuldade real do problema, e essa desproporção é toda a notícia.

Pergunta inevitável, a única que importa em qualquer debate sobre instituição pública: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã para encarar a linha vermelha do metrô, o pequeno empresário que tem o ICMS sangrando do faturamento, a empregada doméstica que ao comprar arroz no mercado deixa metade do preço em tributos embutidos. Recebe a casta de reitores, pró reitores, comissões, subcomissões, grupos de trabalho e assessores que descobriram, no ano da graça de 2026, que existem pessoas com deficiência no Brasil. Cento e vinte dias de deliberação significam cento e vinte dias de salários, diárias, passagens e jetons pagos para confirmar a obviedade. É a velha alquimia estatal: transformar consenso em cargo.

Há aqui uma contradição lógica que não passa pelo crivo do menor dos raciocínios. Se a inclusão é um direito básico, então não se programa para 2028. Se é projeto pedagógico complexo, então não se resolve em quatro meses de reunião. As duas teses não cabem na mesma sala. O que cabe, e cabe perfeitamente, é a função real do anúncio, que não é incluir ninguém, e sim produzir manchete, comprar paz com militância organizada e adiar para depois das próximas eleições internas qualquer compromisso concreto. Anúncio em universidade pública é como promessa de campanha: o valor está em ter sido feito, não em vir a ser cumprido.

Repare na engenharia do gesto. A USP não está abrindo as portas, ela está rateando a fila. Em vez de ampliar vagas, criar cursos noturnos, desburocratizar matrícula, baratear o custo por aluno que hoje rivaliza com universidade americana de elite, o monopólio prefere fatiar o bolo existente em pedaços etiquetados. É a mesma lógica do feudo medieval, que distribuía privilégios por categoria de súdito enquanto mantinha intocada a propriedade do senhor. O senhor, no caso, é a corporação acadêmica que se autorregula, escolhe os próprios dirigentes, define os próprios salários e cobra a conta na boca do caixa do Tesouro estadual. Cota não democratiza monopólio, cota legitima monopólio.

E observe o detalhe mais saboroso do figurino: a universidade que jura combater toda forma de exclusão precisou de oitenta e tantos anos para lembrar que cadeirante também faz vestibular. Oitenta anos construindo discurso, publicando tese, premiando intelectual de banca, e a rampa ficou para 2028. É o tipo de coincidência que só não envergonha quem perdeu a capacidade de corar. Enquanto isso, faculdades particulares de fundo de quintal, dessas que os doutores torcem o nariz no congresso de educação, já recebem aluno com deficiência há décadas, sem grupo de trabalho, sem cento e vinte dias, sem nota oficial. Recebem porque precisam do aluno. A USP não precisa, porque o aluno não paga, quem paga é o senhor ali da esquina que nunca pisou no campus.

No fim, a notícia não é a cota. A notícia é o cronograma. Dois anos para abrir uma porta diz tudo o que precisa ser dito sobre a relação entre o aparelho público e aqueles em nome de quem ele alega existir. A inclusão verdadeira não pede comissão, pede tomada de decisão. O resto é liturgia. E liturgia, como todo sacristão sabe, serve para encher o tempo entre uma coleta e outra. Quem paga, paga. Quem recebe, recebe. E quem precisava entrar, espera sentado, literalmente, até 2028.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.