A nova regra é simples e tem a elegância de um tapa: deixar o carro parado numa vaga marcada com o desenho da tomadinha verde rende multa de R$ 195,23 e cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação. Não importa se a vaga está vazia há três horas, se o shopping está lotado, se o carro elétrico do dono nunca passou ali. O símbolo pintado no chão se tornou território sagrado, e quem ousar pisar nele com um motor a combustão recebe a visita do tabelião do asfalto, agente fiscalizador com talão na mão e cota a cumprir.

Vale a pergunta que nenhum jornal faz, porque jornal de notícia de trânsito costuma engolir o release oficial como peixe engole anzol: quem paga e quem recebe nessa festa? Paga o sujeito que dirige um Gol 2008, financiado em sessenta vezes, que parou cinco minutos para buscar a filha na escola. Recebe o dono do Tesla, do Porsche Taycan, do BYD top de linha, gente que comprou um carro de cento e cinquenta mil reais para cima e que agora ganha, de brinde, vaga reservada na cidade inteira, em shopping, em supermercado, em prédio público. O pobre subsidia o conforto do rico e ainda apanha de multa se reclamar.

O argumento oficial é aquele de sempre, embalado em papel de presente verde: estamos incentivando a transição energética, salvando o planeta, modernizando a frota. Tradução honesta: criamos uma reserva de mercado para a indústria automobilística de luxo, garantida pelo cassetete do agente de trânsito. A lógica é cristalina e não admite dois lados. Se o carro elétrico fosse tão maravilhoso quanto a propaganda jura, ninguém precisaria de vaga reservada, multa pesada e ponto na carteira para convencer o consumidor. Bastaria o produto. Quando a coisa boa precisa de força para se impor, é porque a coisa não é tão boa quanto dizem; é cara, é nicho, e a conta da fantasia será paga pelo bolso alheio.

Há um padrão histórico que se repete com a constância de relógio suíço. O Estado escolhe um setor querido, costuma ser o que tem lobby caro e jantar regado a vinho importado em Brasília, decreta que aquele setor representa o futuro, e mobiliza o aparato repressivo para criar demanda artificial. Foi assim com o álcool combustível nos anos setenta, é assim agora com o elétrico. Quem ficou pagando a conta? Quem sempre paga: o motorista comum, no preço da gasolina, no imposto embutido, na multa que cai sem aviso. O nome técnico disso, na boca dos otimistas, é política industrial. O nome popular, na boca de quem entende a casa, é propina institucionalizada com selo verde.

E note a beleza do detalhe: cinco pontos. Não é multa leve, daquelas que se paga e segue a vida. É infração grave, pesada, daquelas que somadas a outras tiram o sujeito do volante. Cinco pontos porque o legislador entendeu que pisar no quadrado errado é mais perigoso que avançar sinal vermelho, que andar sem cinto, que dirigir falando ao celular. Está escrito na tabela, basta conferir. A vaga do carro do rico vale mais, na contabilidade moral do regulamento, que a vida do pedestre na faixa. O símbolo importa mais que a substância. É a confissão involuntária de para quem o sistema realmente trabalha.

Resta a pergunta inicial, que é também a final, porque toda análise honesta volta para ela como rio volta para o mar: quem paga e quem recebe? Paga o motorista de Uber que parou para almoçar. Paga o aposentado que foi ao banco. Paga a doméstica que pegou emprestado o carro do patrão. Recebe a montadora que vendeu o carro caro, o shopping que ganhou aura de moderno, o burocrata que justificou seu salário publicando portaria, e o agente que bateu a meta do mês. O resto é fumaça verde, jargão de sustentabilidade e a velha história de sempre, agora com tomada na parede.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.