O fato é prosaico e por isso mesmo revelador. Um deputado federal, eleito pelo voto de gente que paga imposto, foi tratado com truculência por um coronel encarregado de "assessoria parlamentar", eufemismo militar para o setor que existe justamente para domesticar civis incômodos no Legislativo. O parlamentar reagiu, chamou o comandante da Força de frouxo e devolveu a intimidação no varejo. O Exército, claro, ficou ofendido. Ofendido com o quê, exatamente, é a pergunta que ninguém da tropa quer responder em voz alta.
Convém lembrar quem paga a conta dessa "assessoria parlamentar" que se acha autorizada a peitar deputado. Paga o pedreiro, paga a manicure, paga o motoboy, paga o sujeito que tem o salário corroído pela inflação enquanto o coronel de gabinete recebe gratificação para fazer lobby fardado dentro do Congresso. A função existe formalmente para "interlocução institucional", expressão bonita que na prática significa pressionar parlamentar para aprovar orçamento da farda, blindar privilégio de casta e garantir que a conta cheia chegue intacta ao fim do mês. É serviço de despachante armado, custeado por quem nunca foi convidado para a mesa.
A indignação seletiva da caserna é a parte cômica do espetáculo. Generais que assinaram comunicado contra ministro do Supremo, generais que posaram em palanque, generais que viraram comentaristas políticos em horário comercial, agora descobriram a virtude do recato institucional porque um deputado mandou um deles tomar no rumo. A premissa é simples e a conclusão é inevitável: ou farda é símbolo de neutralidade republicana e portanto não opina sobre política, ou farda é ator político como qualquer outro e portanto leva resposta política como qualquer outro. Não existe terceira opção. Querer a prerrogativa do silêncio reverencial e ao mesmo tempo o direito de intimidar parlamentar é privilégio de regime que já passou da validade.
Há um padrão histórico aqui que merece ser nomeado sem cerimônia. Toda burocracia armada, em qualquer país e em qualquer século, tende a confundir o monopólio da força com o monopólio do respeito. Começa exigindo orçamento, depois exige deferência, depois exige imunidade ao escrutínio, e quando alguém aponta o dedo descobre, escandalizada, que o civil ousou falar. Pretorianos romanos cobravam pedágio para escolher imperador, janízaros otomanos faziam o mesmo em Istambul, e cada república latino americana tem seu capítulo de coronel que se acha tutor da nação. O figurino muda, o vício é o mesmo: confundir o cofre público com mesada vitalícia e o Parlamento com sala de espera.
O detalhe que escapa ao noticiário palaciano é que o deputado fez o que deputado deveria fazer todo santo dia, tratar servidor público como servidor público. Comandante de Exército não é monarca, é funcionário. Recebe do contribuinte, presta contas ao contribuinte, e quando manda o seu coronel ameaçar representante eleito está abusando de cargo pago com dinheiro alheio. Chamar esse arranjo de frouxo até pegou leve. O termo técnico mais preciso seria parasitismo institucional com porte de arma. Mas a coluna é jornalística, não jurídica, então fica em frouxo mesmo.
No fim, a equação se resolve sozinha. De um lado, um civil que ganhou voto e responde à urna. Do outro, um aparato fardado que ganha verba e responde a si mesmo. Quando o segundo tenta intimidar o primeiro, o que está em jogo não é etiqueta militar, é a hierarquia republicana elementar, aquela em que o eleitor está no topo e o funcionário público, fardado ou não, está embaixo prestando serviço. Inverter essa ordem é o passo inicial de toda aventura autoritária, e ela costuma começar exatamente assim, com um coronel ofendido e uma imprensa cordata achando que o problema é o tom do deputado.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.