A cena é digna de manual de república tropical: um general de quatro estrelas, fardado, circulando pelos corredores da Câmara como se aquilo fosse extensão do quartel, parte para cima de um deputado federal porque o sujeito teve o atrevimento de fazer aquilo para o qual foi eleito, ou seja, falar. O parlamentar, do partido que ainda finge alguma coerência liberal, registrou boletim de ocorrência na Polícia Legislativa e pediu formalmente que o oficial não ponha mais o pé no Congresso Nacional. Traduzindo do português para o português: um servidor público pago com imposto tentou amordaçar outro servidor público eleito com voto, dentro do prédio onde o eleitor é, na teoria, o senhor da casa.
Convém recordar uma trivialidade que anda esquecida: o general não é dono de nada. A farda que ele veste foi costurada com dinheiro arrancado, sob ameaça de cárcere, do bolso do padeiro, do motorista de aplicativo, da costureira e do pequeno comerciante. O soldo, a aposentadoria precoce, o motorista, o avião e a pompa toda saem do mesmo bolso. Quando esse funcionário público de luxo decide intimidar o representante eleito justamente por aquele padeiro, ele não está defendendo a Pátria, está cuspindo no contracheque. É o capataz que invade a sala do administrador para dar bronca no patrão.
A história já mostrou, com tédio repetitivo, o que acontece quando homens de armas começam a achar que farda confere autoridade moral superior à do voto. Roma teve seus pretorianos vendendo o trono no leilão, a América Latina inteira passou meio século trocando presidente por comunicado oficial lido em rede nacional, e em todo episódio o roteiro é o mesmo: primeiro o olhar atravessado, depois o dedo no peito, depois o tanque na rua. Quem trata como folclore o general que aperta deputado no corredor está apenas autorizando o próximo capítulo. A intimidação é o ovo da serpente, e serpente, sabemos, não nasce vegetariana.
O detalhe saboroso é que o sujeito acreditou, com toda sinceridade, que poderia agir assim e sair impune, porque é exatamente isso que o aparato estatal ensina aos seus prediletos: você é diferente, você é casta, você é intocável. O imposto vira soldo, o soldo vira sensação de superioridade, a superioridade vira mão estendida no peito do civil. Trata-se da mesma lógica do fiscal que humilha o comerciante, do delegado que arrasta jornalista, do auditor que destrói pequena empresa por uma vírgula no Sped. O monopólio da força, quando não é vigiado de perto, sempre apodrece pela mesma costura.
Pior é o silêncio cúmplice da maior parte da imprensa, que para certas barbaridades tem manchete de três andares e para outras descobre subitamente o valor do contraditório, da apuração paciente, do bom senso institucional. Se a vítima fosse outra, com o crachá ideológico correto, o país inteiro estaria de luto fingido em horário nobre. Como o agredido carrega rótulo errado, a coisa vira nota de rodapé, anedota de bastidor, quase uma travessura. O leitor atento percebe o truque: a indignação seletiva é o uniforme civil daqueles que invejam o uniforme militar.
Que se apure, que se processe, que se afaste, e que sirva de aviso. Farda não é toga, patente não é mandato, e quartel não é Parlamento. Quem confunde as três coisas precisa ser lembrado, com a delicadeza burocrática do regimento e a frieza objetiva da lei, de quem paga o salário e de quem recebe ordens nesta república. O contribuinte paga, o militar recebe. O eleitor manda, o servidor obedece. Inverter essa equação é o primeiro passo para o abismo, e o segundo passo costuma vir calçado de coturno.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.