A imagem é eloquente como poucas coisas neste país: a influenciadora de maior visibilidade do mercado de apostas online sai escoltada, sem o glamour das fotos no iate, sem o brilho dos relógios cravejados, sem o batalhão de assessores que costumam transformar qualquer aparição em desfile. Restou o que sempre esteve ali por baixo do verniz, a relação promíscua entre dinheiro de origem nebulosa, marketing digital agressivo e uma plateia hipnotizada que confunde extrato bancário com mérito. Quem viu as imagens viu também, sem precisar de legenda, o retrato de uma economia paralela que cresceu à sombra da omissão regulatória conveniente e do apetite arrecadatório que finge não enxergar enquanto o caixa enche.

O ponto que ninguém quer encarar é simples e desconfortável. As bets não brotaram do solo como cogumelos depois da chuva. Elas foram toleradas, estimuladas, anunciadas em horário nobre, patrocinaram times inteiros, compraram a alma de jornalistas esportivos e financiaram a permanência no ar de meio mundo do entretenimento brasileiro, tudo isso enquanto o poder público, de pires na mão, calculava quanto iria abocanhar da festa. A moralidade chega tarde, sempre chega tarde, e chega exatamente no momento em que a colheita já foi feita pelos de cima e a conta vai cair no colo dos otários que apostaram o salário acreditando no sorriso branqueado da musa do momento.

Há uma lógica antiga nisso, tão velha quanto os impérios que vendiam indulgências para financiar guerras. Primeiro se cria o vício, depois se regulamenta o vício, em seguida se taxa o vício, e finalmente se pune ritualmente alguma figura emblemática para que a plateia tenha a sensação de que a justiça funciona. É o sacrifício público que limpa a consciência coletiva sem mexer numa vírgula da estrutura que permitiu o desastre. Roma fazia isso com gladiadores, a Idade Média fazia com hereges, a república fazia com bodes expiatórios convenientes. Muda o figurino, o roteiro é idêntico.

Siga o dinheiro e o enredo se ilumina. Bilhões transacionados em plataformas opacas, comissões de afiliados que faziam do influenciador um vendedor disfarçado de amiga próxima, propagandas que prometiam liberdade financeira para quem mal tinha liberdade de pagar o aluguel, e por trás de tudo um arranjo onde sempre os mesmos ganham, sempre os mesmos perdem, e o Estado oscila entre a cumplicidade silenciosa e a indignação tardia conforme a conveniência eleitoral do mês. A prisão de uma figura midiática não desmonta o esquema, apenas o reorganiza, com novos nomes, novas caras, novos estúdios de gravação.

Que ninguém se engane com a catarse das imagens. A advogada algemada é o produto final de um sistema que ela própria ajudou a vender, mas que não inventou sozinha. Inventaram em conjunto com bancos que processaram pagamentos sem perguntar, com legisladores que demoraram anos para regular o que era óbvio, com plataformas que lucraram com o engajamento da promessa fácil, e com uma cultura pública que canonizou a ostentação como prova de virtude. Punir a ponta do iceberg é teatro. Olhar para o iceberg inteiro exige coragem que a classe política brasileira nunca demonstrou ter, e que talvez nem queira demonstrar, porque o iceberg sustenta confortavelmente o navio em que ela navega.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer leitura honesta deste episódio. Quem pagou pela festa que durou anos? O apostador anônimo, o pai de família que torrou o décimo terceiro acreditando em estatística inventada, o jovem que viu na tela do celular um atalho que não existe. Quem recebeu? Os donos das plataformas, os intermediários financeiros, os publicitários, os clubes patrocinados, os algoritmos das redes, e sim, o próprio Estado que cobrou seu pedágio enquanto fingia debater regulação. A algemada de hoje é nota de rodapé. O esquema continua de pé, esperando a próxima estrela para o próximo ciclo do mesmo enredo.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.