O vereador Thomaz Henrique protocolou uma acusação que tem o sabor amargo das hipocrisias bem documentadas, o padre Júlio Lancellotti, aquele mesmo que vive nas manchetes das causas sociais e nos abraços fotogênicos da militância paulistana, teria utilizado recursos da Paróquia de São Miguel Arcanjo para custear despesas processuais que, salvo prova em contrário, são estritamente pessoais. A denúncia desloca o personagem do palco da caridade para o balcão do contador, e é exatamente nesse balcão que toda biografia inflada costuma desabar.

Convém olhar a coisa pela mecânica do dinheiro, sem o véu da batina. A paróquia não imprime moeda, ela vive do dízimo, da esmola, da contribuição da senhora aposentada que deixa vinte reais no envelope acreditando que aquilo virá pão para o mendigo da esquina. Quando esse fluxo é desviado, ainda que parcialmente, ainda que travestido de honorário advocatício, ainda que justificado por qualquer engenharia retórica de que a causa do padre é a causa dos pobres, o que ocorreu materialmente foi a transferência de patrimônio do fiel anônimo para o bolso do litigante célebre. O fiel pagou, o militante recebeu, o pobre ficou olhando.

Há uma figura clássica no debate republicano romano sobre os tribunos que se autoproclamavam defensores da plebe enquanto enriqueciam às custas do erário, ela se repete há dois mil anos com personagens trocados e batinas variadas. O mecanismo é sempre o mesmo, o sujeito constrói uma reputação de santo desinteressado, monopoliza o microfone moral, transforma qualquer questionamento em ataque aos pobres, e sob essa blindagem opera um caixa que ninguém ousa auditar porque auditar virou pecado social. É a velha alquimia, transformar caridade alheia em imunidade própria.

A questão lógica é desconcertante na sua simplicidade. Se o processo é pessoal, as custas são pessoais. Se as custas foram pagas com dinheiro coletivo, houve apropriação. Não existe terceira via, não existe contexto que dissolva a aritmética, não existe causa nobre que reescreva o débito e o crédito. O sacerdote que se apresenta como o último guardião da pureza ética numa cidade de pecadores tem o dever redobrado de manter o livro caixa aberto, justamente porque vendeu sua imagem inteira nessa nota promissória de santidade.

Note a beleza perversa do arranjo, o militante que passou anos chamando de fascista qualquer um que ousasse questionar suas obras, que tratou crítica como heresia e auditoria como perseguição, agora descobre que a contabilidade é um inimigo mais paciente do que qualquer adversário ideológico. Ela espera. Ela acumula. Ela um dia abre a planilha. E quando abre, não há sermão, não há foto com cobertor, não há live emocionada que faça o número sair do papel. O número fica. O número acusa.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer escândalo digno do nome, quem pagou e quem recebeu. Pagaram os fiéis da Paróquia de São Miguel Arcanjo, gente humilde em sua maioria, gente que confiou na bandeja porque confiava no homem que segurava a bandeja. Recebeu, segundo a denúncia, o próprio homem da bandeja, em causa própria, na condição mais desconfortável que um pastor pode assumir, a de réu financiado pelo rebanho. O resto é literatura de assessoria de imprensa.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.