O comunicado chegou seco, como costumam chegar os bilhetes de despejo. A União Europeia, com a frieza de cartório que lhe é peculiar, riscou o nome do Brasil da lista dos países habilitados a vender carne para o bloco. Motivo alegado: descumprimento das regras sobre antimicrobianos. Tradução em português claro: os europeus disseram que não confiam no carimbo do fiscal brasileiro, e o carimbo do fiscal brasileiro, convenhamos, há décadas vale menos do que o papel onde foi batido. Nove bilhões de reais em exportações entram no triturador a partir de setembro, e o frigorífico do interior de Goiás vai descobrir, da pior maneira, que a soberania nacional acaba na porteira de Roterdã.
Antes que algum patriota de ocasião saia gritando contra o protecionismo europeu, convém olhar para dentro de casa. O Ministério da Agricultura, esse paquiderme que custa uma fortuna ao contribuinte, existe oficialmente para garantir que o boi brasileiro chegue ao mercado externo com pedigree sanitário. É a justificativa moral do imposto que financia a estrutura, dos salários polpudos, dos cargos de confiança, das viagens de inspeção em classe executiva. Pois bem: o serviço contratado não foi entregue. O Estado cobrou pela apólice e na hora do sinistro descobriu-se que a seguradora estava de férias prolongadas em Brasília.
A pergunta que ninguém na imprensa oficial faz é a mais óbvia de todas. Quem ganha com o veto? Os concorrentes diretos, naturalmente. Argentina, Uruguai, Austrália, todos esfregando as mãos enquanto o filé brasileiro fica encalhado no porto. E quem perde? Não é o burocrata, não é o ministro, não é o secretário de defesa agropecuária que assinou os relatórios de fachada. Perde o pecuarista de médio porte que financiou o rebanho a juros de cartão, perde o caminhoneiro autônomo que vivia do frete refrigerado, perde a cozinheira do frigorífico em Mato Grosso do Sul que vai receber o aviso prévio em outubro. O custo da incompetência estatal, como sempre, é socializado entre os que nunca tiveram cadeira no banquete.
Há uma lição antiga que os impérios aprendem quando se descuidam: a confiança é construída em décadas e destruída em uma assinatura. Roma perdeu o monopólio do trigo no Mediterrâneo no instante em que seus inspetores aceitaram a primeira bolsa de moedas para fingir que não viam o grão mofado. O Brasil, exportador agropecuário de classe mundial, fez algo pior. Não vendeu o carimbo, simplesmente parou de levá-lo a sério, achando que o tamanho do rebanho compensaria a leniência regulatória. Os europeus, que de tolos não têm nada quando se trata do próprio estômago, leram a planilha e fecharam a porta. Não foi geopolítica, não foi armadilha verde, foi contabilidade.
O mais saboroso da história é o silêncio constrangido do governo, que passou os últimos anos posando de potência ambiental nos palcos internacionais enquanto deixava o serviço básico de fiscalização sanitária apodrecer por dentro. Discurso sobre sustentabilidade para a plateia de Davos, antibiótico despejado a esmo no cocho para o consumidor europeu. A contradição era estrutural e a conta venceu. Agora vão tentar empurrar o prejuízo para o BNDES, para a Conab, para alguma linha emergencial de crédito subsidiado, que é o nome técnico para transferir dinheiro do bolso do contribuinte para o caixa de quem deveria ter feito a lição de casa. O ciclo se completa: o Estado falha, o Estado se autodeclara solução, o Estado cobra mais imposto para resolver o problema que o Estado criou.
No fim das contas, o veto europeu é um espelho incômodo. Mostra que o discurso de gigante agroexportador, repetido em cadeia nacional como mantra de autoestima, depende de uma estrutura sanitária que, quando auditada por quem realmente paga pela carne, não passa no teste mais elementar. Enquanto o pecuarista honesto for tratado como vaca leiteira do orçamento e o fiscal relapso como funcionário intocável, o próximo veto já está sendo redigido em algum gabinete de Bruxelas, Pequim ou Washington. E o brasileiro continuará pagando duas vezes: uma pela ineficiência que produz o desastre e outra pelo socorro que finge consertá-lo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.