Cem reais por um saco de areia. Leia de novo, devagar, porque a frase merece ser saboreada como vinho velho. Em plena orla de Copacabana, no sábado de show da colombiana, ambulantes cariocas reforçaram sacos de aniagem com fita, encheram de areia da própria praia, e venderam o conjunto como camarote. Não é piada, não é sátira, não é roteiro de humorista cansado. É a fotografia mais honesta da economia brasileira que se pode obter sem laboratório. Onde há demanda reprimida, há criatividade. Onde há criatividade, há lucro. E onde há lucro feito por gente pobre sem alvará, há sempre um fiscal de plantão coçando o crachá.
Repare na arquitetura do negócio, porque ela é perfeita. O sujeito não pediu subsídio, não montou edital, não formou consórcio com banco público, não esperou o BNDES financiar a logística do saco de areia. Ele observou o problema concreto, multidão alta, gente baixa querendo enxergar, e ofereceu a solução pelo preço que o cliente topou pagar. Ninguém foi obrigado. Quem comprou, comprou porque achou que valia. Quem não comprou, ficou no chão e reclamou da vida, como manda a tradição. Esse pequeno teatro de troca voluntária, sem comitê, sem ouvidoria, sem secretaria de inclusão vertical, contém mais sabedoria econômica do que três anos de mestrado em qualquer universidade federal.
E aqui entra o detalhe delicioso, aquele que ninguém quer ver. Para o show acontecer, a prefeitura mobilizou efetivo policial, montou estrutura, isentou imposto da produtora, cedeu a praia gratuitamente, prometeu retorno em turismo, falou em milhões de reais movimentados. Tudo pago, evidentemente, com o dinheiro do contribuinte que talvez nem goste da cantora. O mesmo poder público que abre o cofre para o megaevento é o que vai mandar o guarda municipal apreender o saco de areia do ambulante, porque o sujeito não tem nota fiscal, não recolheu ICMS sobre grão de quartzo e não está no Simples Nacional. O grande recebe, o pequeno apanha. A regra do jogo é tão antiga quanto o próprio jogo.
O silogismo é brutal e não admite recurso. Se o Estado existe para proteger propriedade e contrato, ele deveria proteger primeiro o sujeito que pegou areia que era de ninguém, agregou trabalho, criou um produto e vendeu por preço acordado. Se, em vez disso, o Estado existe para distribuir privilégio a quem tem advogado caro e perseguir quem tem chinelo, então chamemos as coisas pelo nome que elas têm. Não é regulação, é pedágio. Não é fiscalização, é extorsão com farda. Não é política pública, é proteção de mercado para o amigo do prefeito que já tem o camarote oficial vendido a três mil reais o ingresso, esse sim com selinho, com banheiro químico e com champanhe morno.
Há quem ria do saco de areia como se fosse jeitinho, gambiarra, malandragem carioca. Riam à vontade, mas riam do lado certo. O camarote de cem reais é a prova viva de que mercado nasce de baixo, brota como mato no asfalto, encontra fresta em qualquer lugar onde dois sujeitos queiram trocar algo entre si. Toda a engenharia social do último século, com seus planos quinquenais, suas cotas, seus subsídios, suas agências reguladoras com nomes de quatro letras, foi incapaz de produzir em décadas o que um ambulante anônimo produziu numa manhã de sábado: um bem útil, vendido pelo preço que o mercado bancou, sem tirar um centavo de ninguém que não quisesse pagar. Lembrem dessa cena na próxima vez que vierem dizer que o pobre brasileiro precisa de tutela. Ele precisa é que tirem o pé do pescoço dele.
No fim das contas, a pergunta sempre volta, porque é a única que importa. Quem paga e quem recebe? No show oficial, paga o contribuinte e recebe a produtora. No camarote de areia, paga quem quer enxergar e recebe quem teve a ideia. Adivinhem qual dos dois arranjos vai ser chamado de irregular pelo telejornal da noite. E adivinhem qual dos dois é, do começo ao fim, a coisa mais honesta que aconteceu em Copacabana neste fim de semana.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.