A cena é deliciosa em sua pequenez. A astronauta Christina Koch publica no Instagram, sete dias depois de descer da missão Artemis, um vídeo em que reaprende a andar, segurar um copo, manter o equilíbrio diante da velha e boa gravidade terrestre. A agência espacial norte americana compartilha o vídeo com a pompa habitual, como se o ato de cambalear depois de meses flutuando fosse um feito digno das grandes navegações. E o público, treinado desde a infância para confundir orçamento federal com aventura humana, aplaude de pé.

Pois bem, recuemos o pano. A Artemis, esse programa de retorno à Lua vendido como segunda corrida espacial, consumiu até aqui algo na casa das dezenas de bilhões de dólares, com estimativas oficiais apontando para mais de noventa bilhões até o fim da década. Cada foguete descartável da linha SLS custa, por lançamento, mais de dois bilhões. Dois bilhões. É o orçamento anual de uma cidade média brasileira sendo queimado, literalmente, para que um tubo suba, desça e seja jogado fora. Quem paga? O contribuinte americano, via confisco tributário. Quem recebe? As mesmas quatro ou cinco empreiteiras de sempre, com contratos de custo reembolsável, aquela modalidade em que quanto mais atraso e mais estouro de orçamento, mais a empresa fatura. É o sonho molhado de qualquer burocrata bem relacionado.

A mágica da retórica espacial está em disfarçar esse arranjo sórdido de capitalismo de compadres com a poesia das estrelas. Mostra-se a moça tropeçando no tapete e o espectador esquece que acabou de financiar, involuntariamente, um contrato bilionário para um prime contractor que não entrega no prazo há quinze anos. É o velho truque do mágico de rua, a mão direita segura o lenço colorido enquanto a esquerda esvazia o bolso da vítima. A diferença é que o mágico de rua, ao menos, pede gorjeta. O programa espacial já tirou o troco antes do show começar.

Note a estrutura do silogismo que nos impõem todos os dias. Premissa maior, exploração espacial é símbolo do progresso humano. Premissa menor, a agência estatal é quem faz exploração espacial. Conclusão, quem questiona o orçamento da agência é inimigo do progresso. O truque está na premissa menor, falsa até a raiz. Empresas privadas hoje colocam cargas em órbita por uma fração do custo estatal, com foguetes reutilizáveis, cronogramas que se cumprem e investidores que, quando perdem, perdem o próprio dinheiro, não o dos outros. Quando o cidadão comum bancou, de fato, esse setor privado? Não bancou. Ele surgiu apesar do Estado, não por causa dele, driblando regulação e disputando migalhas do contrato público.

Há algo de profundamente infantil na forma como se consome esse espetáculo. O adulto de terno e gravata, que no balcão do banco contesta dois reais de tarifa, engole sem piscar noventa bilhões em nome da aventura lunar. É a mesma psicologia que fez súditos medievais financiarem com entusiasmo as cruzadas, convencidos de que a glória distante redimia a miséria próxima. Trocaram o selo papal pelo logotipo azul da agência, o cavaleiro templário pelo astronauta sorridente, mas o mecanismo é idêntico, extrair recursos de quem trabalha para custear o símbolo que legitima quem manda.

Fica a pergunta que ninguém faz enquanto a moça sorri desajeitada no vídeo fofo. Se a missão é tão grandiosa, por que precisa ser paga no grito, via imposto, e não por quem voluntariamente queira financiá-la? A resposta está no cambalear. A verdadeira readaptação à gravidade não é a dela, que passa em semanas. É a nossa, do rebanho, que há décadas flutua na ilusão de que o que vem do cofre público é de graça. A gravidade da conta, essa sim, ninguém quer encarar.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.