Sexta-feira, 22 de maio, e um partido que a maioria do eleitorado não saberia localizar numa cédula resolve resolver seu problema de obscuridade pelo caminho mais barato disponível no mercado: pegou o rosto de Joaquim Barbosa, jogou num gerador de inteligência artificial, e produziu um vídeo apresentando o ex-ministro do Supremo como provável candidato à Presidência em 2026. Tudo isso, claro, sem perguntar absolutamente nada ao titular da cara, da voz e da biografia sequestrada. O Democracia Cristã, sigla DC, fez o que qualquer agremiação desesperada por relevância faria se a vergonha tivesse virado bem escasso: usou a propriedade alheia para fabricar capital político próprio. E ainda quer que o leitor ache normal.
Pergunte-se quem ganha com essa façanha tecnológica. Não é Joaquim Barbosa, que acordou candidato sem ter se candidatado, situação jurídica e moral tão absurda quanto encontrar seu nome num contrato de financiamento que você nunca assinou. Quem ganha é o partido nanico que, de uma tacada, comprou minutos de noticiário, manchete em portal grande, e a aparência de ter um quadro presidencial sem precisar conquistar nem o sujeito nem o eleitorado. É marketing por usucapião: tomo o que não é meu, espero a poeira baixar, e fico com o benefício residual da exposição. Custo da operação: alguns créditos de processamento numa plataforma de IA. Lucro: imensurável em mídia espontânea.
O esquema é velhíssimo, apenas a ferramenta é nova. Sempre que aparece uma tecnologia que reduz o custo de falsificar algo, aparece junto a turma que enxerga ali não uma fronteira ética, mas uma oportunidade de arbitragem. Foi assim com o panfleto impresso no século dezessete, com o rádio nos anos trinta, com o santinho fotomontado nos anos noventa. A diferença é que agora qualquer estagiário de assessoria parlamentar produz, num fim de tarde, um deepfake que há cinco anos exigiria um estúdio de Hollywood. E a legislação, como sempre, corre atrás de uma carruagem que já virou foguete.
O ponto que escapa ao debate domesticado é simples e brutal: sua imagem é sua propriedade. Não é detalhe estético, não é firula civilista, é o mesmo princípio que protege sua casa, sua conta bancária e seu corpo. Se um partido pode pegar o rosto de um ex-ministro e fabricar com ele uma candidatura inventada, pode pegar o rosto de qualquer cidadão e fabricar qualquer coisa: uma confissão, um endosso, um crime. Quem aceita o precedente em nome da modernidade tecnológica está aceitando o seguinte princípio: o que é teu vira meu assim que eu tiver software bom o suficiente para copiar. É o confisco silencioso travestido de inovação.
E aqui entra o silogismo que ninguém na imprensa quer montar até o fim. Premissa primeira: usar a imagem de alguém sem autorização para fins eleitorais é apropriação indevida. Premissa segunda: o Democracia Cristã usou a imagem de Joaquim Barbosa sem autorização para fins eleitorais. Conclusão obrigatória: o Democracia Cristã cometeu apropriação indevida. Não há saída pela tangente do "mas é só um teste", "mas é uma homenagem", "mas a IA é uma ferramenta neutra". A ferramenta é neutra; a mão que aperta o botão, não. E a mão aqui pertence a uma legenda que decidiu transformar um cidadão em produto de prateleira sem consultar o cidadão.
O episódio mereceria reação proporcional ao tamanho da gracinha, mas provavelmente vai morrer em nota de repúdio e meia dúzia de tuítes indignados. O ex-ministro reclamará, o partido pedirá desculpas mornas, a imprensa passará para o próximo escândalo, e o precedente ficará de pé, esperando o próximo aventureiro com acesso a uma GPU. Quem paga pela festa é o eleitor, que terá cada vez mais dificuldade de distinguir candidato real de candidato sintético; quem recebe é a indústria do oportunismo eleitoral, que descobriu mais um atalho para roubar relevância sem pagar o preço de construí-la. Isso se chama, nas ruas onde as palavras ainda têm peso, calote.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.