O fato é tão prosaico que beira o constrangedor: o gabinete presidencial, diante da queda de popularidade e das tais "pedradas" que o próprio chefe reclama receber, decidiu apelar para um vídeo fabricado por inteligência artificial que devolve ao mandatário décadas que a biologia já cobrou. Acrescenta-se uma trilha sertaneja com o protagonista travestido de "peão de esperança" e está pronta a poção mágica. Não se governa mais, encena-se. Não se entrega resultado, entrega-se filtro. O recado é claro até para quem nunca leu uma linha de teoria política: quando o produto envelhece na prateleira, o departamento de marketing reescreve o rótulo.
Repare na inversão grotesca. O ofício de quem ocupa o cargo mais alto da República deveria ser administrar a coisa pública, prestar contas, mostrar números. O que se vê, em vez disso, é a terceirização da própria imagem para uma máquina que inventa um sujeito que não existe mais, talvez nunca tenha existido daquele jeito, e empurra goela abaixo do eleitor um simulacro com ares de novela das nove. A lógica é simples e implacável: se o real desagrada, fabrica-se um irreal palatável. Premissa maior, governo impopular precisa de imagem. Premissa menor, imagem verdadeira é impopular. Conclusão inevitável, fabrica-se imagem falsa. O silogismo dispensa comentário.
E aqui entra a pergunta que ninguém na imprensa chapa-branca tem coragem de fazer em voz alta: quem paga essa brincadeira e quem recebe? Porque vídeo profissional com inteligência artificial, trilha sonora licenciada, equipe de roteiro, produtores, editores, agência intermediária, tudo isso não brota do chão. Sai de algum orçamento, de alguma rubrica de comunicação institucional, de algum contrato com fornecedor amigo, de alguma verba de partido que por sua vez foi abastecida pelo fundo eleitoral, que por sua vez foi tirada do bolso do pedreiro, da costureira, do motorista de aplicativo. O peão de esperança da letrinha está, na vida real, financiando o próprio embuste. É a perfeição do golpe: o trouxa custeia a propaganda que o convence a continuar trouxa.
Há algo profundamente cômico e ao mesmo tempo aterrorizante na cena. Imperadores romanos em decadência mandavam cunhar moedas com seus rostos idealizados, mais jovens, mais belos, mais marciais do que a realidade autorizava. Faraós encomendavam estátuas que os mostravam eternamente vigorosos. Monarcas barrocos contratavam pintores para alongar pernas, afinar narizes, encher peitos de medalhas inventadas. Mudou apenas o suporte técnico. Onde havia mármore e óleo sobre tela, agora há rede neural treinada com bilhões de imagens. A vaidade do poder é a mesma desde que o primeiro chefe tribal pediu para o pajé contar uma história mais bonita sobre ele. O que muda é a sofisticação da maquiagem e a velocidade com que ela se espalha.
O detalhe sinistro, contudo, é cultural antes de ser tecnológico. Um eleitorado adulto, vivido, que se respeita, devolveria esse vídeo no remetente com gargalhada coletiva. Riria do constrangimento alheio e exigiria, em troca, números sobre saúde, segurança, custo de vida, dívida pública. Mas o terreno foi preparado por décadas de pedagogia da emoção, em que se ensinou ao cidadão que política é torcida, que líder é ídolo, que adesão é fé. Quando o eleitor é treinado para sentir em vez de pensar, qualquer videoclipe sertanejo com rosto rejuvenescido funciona como hóstia. E a guerra que de verdade interessa ao poder, a guerra pela cabeça das pessoas, segue sendo travada e vencida nesse plano, enquanto os indicadores da vida real continuam apodrecendo discretamente na planilha que ninguém quer abrir.
Então fica a moral da história, sem floreio. Quando um governo precisa de algoritmo para parecer outra coisa, é porque o que ele realmente é já não convence ninguém que esteja sóbrio. O peão de esperança da canção paga IPTU, IPVA, ICMS embutido em cada pacote de arroz, contribuição previdenciária, imposto sobre energia, sobre combustível, sobre o sabonete que usa para tomar banho antes de assistir, no celular financiado em doze vezes, ao vídeo que lhe vende um presidente que não existe. E a pergunta que abriu este texto fecha o texto, porque ela é a única que importa em qualquer assunto envolvendo poder: quem paga e quem recebe? Paga, como sempre, quem trabalha. Recebe, como sempre, quem cobra para encenar que está cuidando de quem trabalha.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.