Na noite de sábado, dentro da UPA Wilson Rodrigues, no centro de Taquaritinga, um entregador cruzou o balcão de recepção e partiu para cima de um funcionário. A câmera de segurança registrou tudo. O motivo, segundo a prefeitura, foi uma discussão sobre um pedido de lanche. Não há ironia disponível no vocabulário humano capaz de descrever adequadamente a cena de um homem ser agredido, dentro de uma unidade de saúde pública, por causa de uma embalagem com batata frita. Mas a ironia está lá de qualquer forma, impassível, aguardando que alguém tenha coragem de olhá-la de frente.

A UPA existe porque o Estado decidiu que saúde é um serviço que ele deve monopolizar, financiar com dinheiro confiscado de quem trabalha e distribuir segundo critérios que ele mesmo define. O recepcionista agredido é um funcionário desse arranjo. Ele chegou ao trabalho naquele sábado, cumpriu seu turno, provavelmente não ganhou o suficiente para compensar o risco de apanhar de um desconhecido, e foi exatamente isso que aconteceu. O contribuinte pagou o salário dele antes de ser pago. O município pagou a luz, a câmera que filmou o espancamento, e agora pagará o processo administrativo que vai investigar o que já está filmado. O agressor, dependendo da leniência do sistema de justiça local, talvez nem chegue a conhecer uma cela. Esse é o ciclo completo. Quem financia não escolhe. Quem escolhe não financia. E quem bate, frequentemente, continua batendo.

Existe uma lei não escrita no funcionamento de qualquer serviço público que qualquer pessoa com os olhos abertos consegue enxergar sem precisar de curso superior: quando você retira a disciplina do mercado, a alternativa é a disciplina da força bruta. No mercado, o entregador que agride um atendente perde o emprego, perde o cliente, perde a avaliação, perde o acesso à plataforma. O custo é imediato e proporcional ao ato. Na esfera pública, o custo é difuso, distribuído entre todos, absolvido pela burocracia e diluído no tempo. O resultado, exibido com clareza pela câmera de segurança de Taquaritinga, é que a violência floresce onde não há preço a pagar por ela.

Há uma lógica cruel mas coerente nisso tudo. O Estado não tem interesse genuíno em resolver o problema que ele mesmo cria, porque o problema justifica sua existência. Se o ambiente degradado de uma UPA gerasse consequências reais para os gestores, para os vereadores que aprovam o orçamento, para os secretários de saúde que definem os protocolos, a situação seria diferente. Mas não gera. O prefeito emitrá uma nota de repúdio. A secretaria abrirá uma sindicância. O sindicato dos servidores pedirá mais segurança, o que significa mais gasto, o que significa mais imposto, o que significa que o mesmo contribuinte que já pagou o salário do recepcionista agora pagará o segurança que deveria ter estado lá antes. A máquina se retroalimenta da própria falha. É a perfeição do sistema: o problema financia a solução que não resolve o problema.

O que aconteceu em Taquaritinga não é uma anomalia. É uma amostra. Uma unidade de pronto atendimento, por definição, recebe pessoas em momento de estresse máximo, dor, medo, impaciência. Qualquer serviço que opere nesse ambiente precisa de estrutura, treinamento, protocolos claros e, acima de tudo, de responsabilidade pelo resultado. Tudo aquilo que o monopólio estatal sistematicamente elimina. Não por malícia dos servidores de base, que em sua maioria estão tão mal servidos pelo sistema quanto a população que atendem, mas pela natureza do arranjo: sem concorrência não há incentivo, sem incentivo não há melhora, sem melhora o que resta é a lei do mais forte, filmada em alta definição pelas câmeras que o imposto comprou.

Pergunte sempre: quem paga e quem recebe. Neste caso, como em quase todos os outros, quem paga é você. E o recibo chegou com um soco.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.