Erick Ferreira Blatt, cinquenta anos, delegado da Polícia Federal da República Federativa do Brasil, foi detido na última quarta-feira depois de ser filmado furtando um produto em supermercado de luxo no bairro do Pina, Recife. Não num mercadinho de bairro, não numa farmácia de madrugada, não numa situação que permitisse invocar o absurdo da necessidade. Num estabelecimento de alto padrão, como convém a quem carrega no bolso uma carteira funcional que, sozinha, já vale mais que o salário de três brasileiros médios somados. O vídeo existe. A imagem está lá. O delegado saiu pela porta errada.
Há uma ironia tão densa neste episódio que quase parece fabricada para fins pedagógicos. O delegado não é qualquer servidor. É o topo da carreira investigativa do país, o homem cuja função institucional específica é reconstituir crimes, identificar culpados, produzir provas e encaminhar à Justiça aqueles que violam a propriedade alheia. Ele é o Estado com rosto, com nome, com distintivo, com a autoridade delegada por todos nós para garantir que ninguém tome o que não é seu. E estava tomando o que não era seu. A contradição não poderia ser mais limpa se fosse desenhada num quadro-negro.
Impérios inteiros caíram por menos simbólico que isso. Quando a classe que administra a lei demonstra, em público e em câmera, que a lei não se aplica a ela mesma, não estamos diante de um escândalo isolado. Estamos diante da confissão involuntária de um sistema. Roma não desabou porque os bárbaros eram fortes demais. Desabou porque os romanos que deveriam defendê-la estavam ocupados saqueando o erário antes que os bárbaros chegassem. O mecanismo é o mesmo. Muda apenas a escala e a sofisticação do furto.
E aqui a questão fica incômoda de verdade. Quanto custa um delegado da Polícia Federal? Faz as contas: salário base, gratificações, auxílios, adicionais de qualificação, progressão funcional, benefícios previdenciários calculados sobre teto diferenciado. Estamos falando de remuneração que supera com folga a de médicos, engenheiros e juízes de primeira instância em boa parte do mundo ocidental. Este homem é pago, fartamente, com o dinheiro tirado compulsoriamente do bolso do padeiro, do eletricista, do frentista, do motorista de aplicativo que levanta às quatro da manhã. E ainda assim a mão foi ao produto errado. Com o que sobrou da conta depois de tudo isso, qualquer item de supermercado, mesmo o mais caro, seria acessível. O furto, portanto, não foi por fome. Foi por outra coisa. E essa outra coisa é mais assustadora que a fome.
O Estado tem um problema estrutural que este episódio apenas torna visível: ele cria uma casta que vive do dinheiro alheio, cercada por prerrogativas, imunidades e um vocabulário próprio que transforma cada privilégio em direito adquirido, e depois se surpreende quando essa casta desenvolve uma relação peculiar com a noção de propriedade. Quem passa a vida inteira numa instituição onde os recursos aparecem sem que ninguém precise produzi-los, onde o orçamento é aprovado por decreto e não por cliente satisfeito, onde o salário cai no quinto dia útil independentemente de resultado, acaba por desenvolver, quase que inevitavelmente, uma certa confusão filosófica sobre o que pertence a quem. O supermercado é apenas onde essa confusão ganhou câmera.
Blatt está afastado. Haverá inquérito. Haverá nota de repúdio. O processo seguirá os ritos de sempre: a instituição se distancia do indivíduo, o indivíduo invoca questões de saúde ou contexto emocional, o tempo passa, a memória coletiva encurta, e algum outro escândalo ocupa o espaço. Não é cinismo. É descrição histórica. O que não haverá é a pergunta honesta que este caso exige, que é esta: se o homem encarregado de proteger a propriedade alheia não respeita a propriedade alheia, o problema é o homem ou é o sistema que o formou, o remunera e o protege? A câmera do supermercado capturou um delegado. O que ela realmente filmou foi um espelho.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.