Um Porsche bateu num Palio dentro de um túnel em São Paulo. O Porsche foi embora. O Palio ficou. As pessoas dentro do Palio ficaram também, feridas, esperando socorro enquanto o culpado sumia no trânsito como quem saiu de uma balada inconveniente. Câmeras registraram tudo, o que significa que existe evidência técnica, processual, incontestável, do ocorrido, e mesmo assim o motorista achou por bem não aguardar a polícia. Essa confiança, essa certeza íntima de que vale mais a pena fugir do que permanecer, não nasce do nada. Ela tem história, tem fundação, tem lógica própria. E compreender essa lógica é mais urgente do que protestar contra ela no vácuo.
A diferença entre um Porsche e um Palio não é apenas de preço. É de posição num sistema de proteções invisíveis que organiza quem paga as consequências de seus atos e quem não paga. O dono de um Palio, ao ter o carro destruído, enfrenta uma cadeia de humilhações previsível: boletim de ocorrência, espera pela perícia, burocracia do seguro caso o tenha, e o trabalhoso processo de tentar identificar e responsabilizar alguém que foi embora. O dono do Porsche, por sua vez, calculou, consciente ou intuitivamente, que o custo de ficar era maior do que o custo de fugir. Esse cálculo só funciona quando tem dado histórico suficiente para sustentá-lo. Não se arrisca assim quem não aprendeu, por experiência própria ou alheia, que o sistema frequentemente confirma a aposta.
Siga o dinheiro, como sempre. Os feridos vão para o pronto-socorro, que é público, financiado pelo contribuinte, mantido com impostos pagos em boa parte pelas mesmas pessoas que dirigem Palios. O Porsche que fugiu provavelmente tem seguro de alto padrão, assistência jurídica especializada e, se localizado, acesso a advogados que transformam a colisão num labirinto processual de anos. Os dois feridos no Palio vão encontrar, no melhor dos casos, uma indenização negociada muito abaixo do dano real, e no pior caso, uma batalha judicial que custará mais do que vale a causa. Quem paga? Quem ficou. Quem recebe? Quem saiu correndo. A equação é simples ao ponto de ser obscena.
O Estado, claro, aparecerá para cumprir seu papel sagrado nesse espetáculo. Vai abrir inquérito, vai emitir nota, vai cobrar IPVA do Porsche no ano seguinte caso o encontre, e vai fazer uma série de movimentos que comunicam seriedade sem necessariamente produzirem justiça. O Complexo Viário Ayrton Senna, cujo nome carrega a sombra pesada de uma morte em circunstância que nunca foi completamente esclarecida, é mantido por pedágio e dotação pública, patrulhado por agentes que existem nominalmente para garantir segurança. E ainda assim um carro esportivo pode colidir em alta velocidade com outro veículo, destruí-lo, ferir seus ocupantes e abandonar a cena sem que ninguém no complexo inteiro conseguisse deter o responsável. A regulação, como de costume, existe no papel. No asfalto, vigora a física e o privilégio.
Há uma lógica aristotélica impiedosa nessa cena que nenhuma indignação de rede social consegue escapar. Se um sistema pune mais severamente quem não tem condições de se defender do que quem tem, então o sistema não está falhando: está funcionando exatamente como foi desenhado. Se a fuga era a decisão racional dada a estrutura de incentivos existente, então a estrutura de incentivos precisa ser o alvo, não o comportamento individual que ela incentiva. O problema não é que um motorista rico teve o mau gosto de fugir de um acidente. O problema é que fugir faz sentido, que a conta da fuga raramente chega ao endereço certo, e que os dois feridos dentro do Palio provavelmente vão descobrir isso da forma mais dura possível nas semanas que vêm pela frente.
No fim, o vídeo circula, as pessoas se indignam, alguém vai escrever sobre impunidade e desigualdade com aquela seriedade performática que substitui o pensamento pela empatia de vitrine, e a semana seguinte vai trazer outro Porsche, outro Palio, outra fuga. Porque o problema não é de câmeras. O problema é que neste país o custo de acelerar e fugir é sistematicamente menor do que o custo de ficar e responder. E enquanto isso for verdade, o Porsche vai continuar acelerando. Quem pergunta por quê ainda não entendeu a pergunta certa. A pergunta certa é: quem decidiu que seria assim?
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.