Na sexta-feira à noite, em Quatá, cidade de cerca de treze mil almas no interior paulista, um homem com uma RAM e com muito menos juízo do que costuma vir de fábrica com os dois decidiu transformar a via pública em palco de sua própria insuficiência. Manobras arriscadas, motor acelerado, pneus cantando, pedestres desviando. O roteiro era previsível para qualquer pessoa que já tenha visto esse filme, e o desfecho foi à altura da introdução: a caminhonete de luxo foi de encontro a uma viatura da Polícia Militar com a elegância característica de quem nunca entendeu a diferença entre coragem e imbecilidade. O condutor foi detido. A RAM, avariada. O espetáculo, encerrado.

Existe uma patologia muito antiga, documentada em todas as civilizações que alguém se deu ao trabalho de registrar, que consiste em confundir o objeto que se possui com a virtude que se é incapaz de demonstrar. O romano chamava de hubris quando os gregos não estavam olhando, e os gregos tinham um panteão inteiro de deuses para punir exatamente esse vício. Não é acidente que as tragédias clássicas raramente comecem com um homem humilde fazendo algo modesto. Elas começam com alguém exibindo poder que não domina, autoridade que não merece ou velocidade que não controla. A peça de Quatá é uma versão comprimida, menos literária, mas estruturalmente idêntica. O protagonista entra em cena com o motor na segunda marcha e sai algemado, que é basicamente o terceiro ato de toda tragédia de vaidade desde que o mundo é mundo.

A caminhonete RAM custa, a depender da versão e dos opcionais, entre trezentos e quinhentos mil reais. É um produto genuíno da livre iniciativa, montado em fábrica, vendido no mercado, e o comprador tem todo o direito de tê-la. O que o comprador não tem direito, e aqui a questão deixa de ser estética e vira moral objetiva, é usar a via pública como pista privada de demonstração. A rua não é sua. Nunca foi. Os pedestres que desviaram daquela RAM na sexta-feira não assinaram nenhum contrato autorizando o espetáculo. Não receberam ingresso. Não foram consultados. A propriedade privada do veículo termina onde começa o espaço de quem estava caminhando ali, tentando chegar em casa. Isso não é ideologia, é a distinção mais elementar entre liberdade e licenciosidade que qualquer civilização funcional aprendeu a fazer, invariavelmente depois de pagar um preço alto pelo confusão entre as duas.

Agora, o contribuinte de Quatá e de todo o estado de São Paulo vai financiar o reparo da viatura danificada. Isso merece um segundo de atenção que raramente recebe. A Polícia Militar é custeada pelo orçamento público, que é custeado pela tributação compulsória de cada padeiro, cada caminhoneiro, cada aposentado que acorda cedo e contribui para que o Estado funcione. Quando uma viatura é avariada por conta de uma exibição de ego particular, o custo dessa avaria é socializado, distribuído entre pessoas que não tinham nada a ver com o espetáculo e que certamente não foram consultadas sobre participar do financiamento dele. O Estado cobra pelos danos que ele mesmo causa, raramente. Quando um particular causa danos ao Estado, a conta vem. Esse mecanismo tem o nome técnico de prejuízo ao erário, mas a tradução direta e honesta é outra: um homem quebrou coisa dos outros e outros vão pagar para consertar. É o modelo mais antigo de privatização de lucros e socialização de perdas que existe, só que aqui o lucro foi apenas simbólico e durou menos de uma curva.

O vídeo circula. Sempre circula. A modernidade criou esse mecanismo perverso pelo qual a estupidez ganha audiência instantânea, e a audiência, por sua vez, alimenta a próxima estupidez. O homem que acelerou a RAM em Quatá talvez estivesse, conscientemente ou não, produzindo conteúdo. Executando uma performance para a câmera de alguém, para o Instagram de alguém, para os comentários de alguém. A via pública como estúdio. Os pedestres como figurantes involuntários. A viatura da PM como prop de cena, acidentalmente. Há impérios que duraram séculos e colapsaram por dentro antes de cair por fora, e o colapso era sempre precedido pelo mesmo sintoma: a forma substituindo o conteúdo, a aparência de força ocupando o lugar onde a força real deveria estar. A RAM na via pública de Quatá é metáfora pequena demais para carregar tanto peso, mas o princípio é o mesmo. Era vazio acelerado. E o vazio, quando bate, bate de verdade.

O condutor foi detido. A providência policial foi correta e necessária. Ninguém no perímetro daquela manobra tinha pedido para ser colocado em risco, e o ordenamento jurídico existe precisamente para que o capricho de um não anule a segurança de todos. Mas o episódio ficará, nas colunas policiais, como mais uma nota de rodapé sobre imprudência no trânsito. Mereceria mais. Mereceria ser lido como o que é: um resumo em tamanho miniatura de um problema de fundo muito maior, que consiste em uma geração inteira que aprendeu a medir valor em cavalos de potência e não consegue frear nem quando a viatura está bem na frente. A física não negocia. A placa da RAM dobrou, o capô amassou, a noite foi encerrada pela polícia. Como sempre, como sempre foi, como sempre será: a realidade cobra à vista o que a arrogância prometeu pagar depois.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.