Um sujeito, em pleno sábado de manhã, decidiu que a vida dele valia menos que o aparelho que carregava no bolso. Pendurou-se na passarela de uma das maiores quedas d'água do planeta, ignorou o rugido de milhões de litros despencando sobre pedras milenares, e mergulhou. Não para salvar uma criança, não para resgatar alguém que se afogava, não por nenhum impulso heroico que justificasse a estatística. Pulou pelo celular. Pelo aparelho. Pela caixinha que provavelmente continha selfies repetidas, conversas de grupo de família e o aplicativo do banco com saldo médio de classe média endividada. Eis o homem contemporâneo em estado puro, comprimido em quinze segundos de vídeo viral.

Há algo de profundamente revelador nessa cena, e a revelação é mais cruel do que o riso fácil que ela provoca. Durante séculos, a humanidade construiu hierarquias de valor que colocavam a própria existência acima das posses materiais. Mesmo o avarento mais caricato da literatura clássica não se atirava de um penhasco por uma moeda. O camponês medieval, com toda a sua miséria, sabia distinguir entre a vida e o pão. Foi preciso chegar ao século vinte e um para que um homem com saúde, emprego presumível e família esperando no estacionamento entendesse que valia a pena trocar tudo isso por um chip de silício fabricado em Shenzhen.

E aqui é onde a coisa fica interessante, porque ninguém pula numa catarata por causa do plástico e do vidro. O sujeito pulou pelo que está dentro do aparelho, e o que está dentro do aparelho não é dele. É da nuvem, é da empresa de telefonia, é do banco digital, é do algoritmo que decide o que ele vê e o que ele pensa. O homem arriscou a vida para resgatar algo que tecnicamente não lhe pertence, que pode ser bloqueado remotamente, atualizado contra a vontade dele, vasculhado por um juiz com uma canetada e monitorado por meia dúzia de corporações que vendem a localização dele em tempo real. Pulou para salvar a coleira, convencido de que era um colar de pérolas.

Pergunte-se quem ganha com essa relação patológica entre o cidadão e o aparelho. Não é o cidadão, evidentemente, porque ele é o produto, não o cliente. Ganham as plataformas que coletam cada toque na tela. Ganha o banco digital que tornou impossível pagar uma conta sem o tal aparelho. Ganha o governo que está digitalizando documento, CPF, carteira de motorista e tudo o mais dentro de aplicativos oficiais, transformando o celular num passaporte interno obrigatório que nenhum ditador do passado conseguiu impor com tamanha eficiência. O homem que pulou não estava resgatando um objeto, estava resgatando a própria identidade civil sequestrada por um sistema que ele mesmo, voluntariamente, aceitou.

O detalhe deliciosamente trágico é que ninguém precisou apontar uma arma para a cabeça dele. Não houve decreto obrigando a baixar o aplicativo da Receita, do INSS, do banco, do plano de saúde, do estacionamento, do restaurante, da farmácia. Houve apenas a velha alquimia de transformar conveniência em dependência e dependência em servidão, vendida como progresso, embrulhada em marketing colorido e abençoada por uma classe política que adora ter os governados rastreáveis em tempo real. O sujeito da catarata é o protótipo do súdito moderno, aquele que beija a corrente porque ela faz vibrar quando chega notificação.

Da próxima vez que alguém disser que a digitalização compulsória da vida é inevitável, lembre desse vídeo. Um homem adulto, num dos cenários mais belos do planeta, em vez de contemplar o espetáculo da natureza, escolheu pendurar-se num parapeito molhado para recuperar a coleira eletrônica. A natureza ali rugia, indiferente, há milhões de anos, e continuará rugindo quando o celular, a operadora, o aplicativo e até o próprio nome do sujeito estiverem esquecidos. Talvez fosse o caso de a gente se perguntar, antes do próximo mergulho, o que exatamente está se afogando, e quem está lucrando com isso.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.