O deputado Carmelo Neto entrou na Universidade Regional do Cariri com um celular na mão e saiu com um diagnóstico que qualquer pedreiro de esquina daria de graça: o prédio está caindo. Infiltração no teto, mofo nas paredes, vidro quebrado, fiação pendurada como cipó em mata fechada. Nada disso, em tese, deveria gerar polêmica. Polêmica, em qualquer república adulta, seria explicar por que uma instituição que consome orçamento estadual há décadas se parece mais com um galpão abandonado do que com um templo do saber. Mas a indignação, no Brasil, tem endereço fixo, e raramente coincide com o local do crime.

Observe a coreografia. O parlamentar aponta a câmera para a infiltração; os professores apontam o dedo para o parlamentar. O foco se desloca da goteira para o intruso, do mofo para o microfone, do problema para quem teve a má educação de nomeá-lo. É o velho truque do ilusionista: enquanto o público olha para a mão direita, a esquerda esvazia o bolso. E há décadas, nas universidades públicas brasileiras, a mão esquerda trabalha em silêncio, com sindicato, com corporativismo e com a certeza tranquila de que ninguém terá coragem de perguntar onde foi parar o dinheiro.

Porque a pergunta é incômoda, e por isso ninguém faz. A Universidade Regional do Cariri não funciona com voto de pobreza nem com esmola de freira. Ela é financiada, ano após ano, com imposto compulsoriamente extraído do cearense, daquele mesmo cearense que paga ICMS no botijão, no litro de gasolina, na conta de luz que já vem com tributo embutido em cima de tributo. Esse dinheiro entra. Folha de pagamento sai. Manutenção predial, aparentemente, evapora no caminho. Quem recebe salário recebeu; quem deveria receber tinta, telha e fiação nova ficou esperando. A conta não fecha por acaso, ela não fecha por desenho.

E aqui entra a parte que o cidadão de boa fé custa a aceitar: a precariedade não é falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como projetado. Um prédio bem mantido não gera emenda parlamentar, não gera contrato emergencial, não gera licitação de reforma com aditivos sucessivos. Um prédio podre, em compensação, é uma mina. Cada infiltração é um pretexto orçamentário futuro, cada janela quebrada é uma promessa de campanha, cada fio exposto é um capítulo do próximo edital. A ruína tem dono, tem beneficiário, tem fluxo de caixa. O que falta é só auditoria, e auditoria, como se sabe, é coisa de fascista.

O detalhe saboroso é a reação dos professores. Não houve, segundo se viu, mobilização para cobrar do governo estadual a verba de manutenção atrasada, nem assembleia para exigir do reitor o destino da rubrica predial. Houve barulho contra quem filmou. Traduzindo do dialeto acadêmico para o português dos mortais: a denúncia ofendeu mais que o abandono. Quem julga pelos atos, e não pelos comunicados oficiais em papel timbrado, entende na hora de que lado da equação cada um está. Quem defende a instituição defende, no limite, a própria cadeira; quem aponta a goteira está, ali, perturbando o arranjo.

No fundo, a cena toda é uma pequena alegoria nacional. O Estado cobra como se fosse suíço, entrega como se fosse haitiano, e quando alguém ousa registrar a discrepância com um aparelho de mil reais, o linchamento moral é imediato. O contribuinte pagou pela universidade, pagou pela reforma, pagou pelos professores, pagou pelo deputado e pagará, em seguida, pela comissão de ética que investigará a visita. Pagou cinco vezes pelo mesmo buraco no teto. E ainda terá que ouvir, da tribuna e do plenário acadêmico, que o verdadeiro problema do Brasil é a falta de investimento em educação. É, sempre é.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.