Dezesseis bilhões de euros. É esse o preço que a Volkswagen decidiu pagar para se livrar de operários que ela mesma contratou, de fábricas que ela mesma ergueu e de um modelo de negócio que ela mesma abraçou quando o governo alemão prometeu que o futuro era elétrico, verde e subsidiado. Agora o cheque chegou, e quem assina é o acionista, o trabalhador demitido e a cadeia de fornecedores que passou trinta anos girando em torno do motor a combustão que Berlim resolveu banir por decreto. Curioso como o mercado, sozinho, jamais teria produzido uma catástrofe tão bem coordenada.

Quer dizer, olha para o roteiro. Primeiro o Estado alemão decide, por canetada, que carro a diesel é pecado mortal. Depois anuncia que carro elétrico é sacramento, e joga bilhões em subsídio para o consumidor comprar o brinquedo caro que ninguém pediu. A indústria, dócil, reengenharia toda a cadeia produtiva para atender ao novo dogma. Fábricas são reconvertidas, engenheiros retreinados, fornecedores de peça de motor a combustão são empurrados para a falência silenciosa. Aí o subsídio acaba, o consumidor descobre que carro elétrico continua caro e a bateria continua ruim, a China entra no jogo com produto melhor pela metade do preço, e o alemão descobre que apostou a herança industrial em cavalo manco pilotado por burocrata.

Aqui é onde a coisa fica saborosa. Ninguém, absolutamente ninguém em Bruxelas ou em Berlim, vai perder o emprego por ter destruído a espinha dorsal industrial do continente. Os funcionários de gabinete que assinaram as diretivas de emissão continuam com salário, pensão e prestígio. Os políticos que se fantasiaram de salvadores do planeta seguem palestrando em Davos. Quem paga a conta é o cara da linha de montagem em Zwickau, é o engenheiro de 52 anos em Osnabrück, é o pequeno fornecedor de embreagem que atendia a Volkswagen desde os anos setenta. A tirania mais eficiente é aquela que se disfarça de virtude ambiental e paga o próprio salário com o imposto de quem ela quebra.

Repare no detalhe fiscal, porque é aí que a mágica se completa. Esses dezesseis bilhões vão gerar prejuízo contábil, o prejuízo vai reduzir imposto a pagar por vários exercícios, e parte relevante da conta vai bater de volta no contribuinte alemão pela via da renúncia fiscal. Ou seja, o mesmo pagador de imposto que financiou o subsídio ao carro elétrico agora financia a demissão do operário que fabricava o carro a diesel que o governo mandou parar de fazer. Dois pagamentos, mesma vítima, resultado líquido negativo em qualquer planilha. Chame isso de política industrial se quiser; o nome antigo é confisco em duas parcelas.

E o pior nem é o dinheiro. O pior é a mensagem que fica gravada em toda decisão empresarial a partir de agora. Nenhum executivo com juízo vai investir capital de longo prazo em setor sujeito ao humor moral do burocrata europeu. Nenhum jovem vai escolher engenharia mecânica para trabalhar numa indústria que Bruxelas pode declarar imoral na próxima terça-feira. A destruição do tecido produtivo alemão não é acidente de percurso, é consequência lógica de um sistema em que gente que nunca vendeu um parafuso decide o que a indústria deve produzir. O resto é literatura de comunicado oficial.

Sobra o consumidor, que continua querendo carro barato, confiável e movido a gasolina, porque o consumidor real, o que abre a carteira, nunca leu o manifesto climático de Bruxelas. E sobra a China, sentada na mesa vendo o suicídio assistido do concorrente ocidental, agradecendo o presente de anos de vantagem tecnológica que o Ocidente entregou de graça em nome de uma virtude que ninguém pediu. Dezesseis bilhões de euros é o preço de uma lição que a Europa vai fingir que não aprendeu, para poder repetir na próxima indústria da vez.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.