Surgiu mais um salvador do planeta sobre quatro rodas. A Volkswagen apresenta o ID. Polo, hatch elétrico com até 455 quilômetros de autonomia, prometendo guerra de preços contra o BYD Dolphin, e o noticiário automotivo entra em êxtase como criança diante de vitrine de Natal. A imprensa especializada repete o release da fábrica com vírgulas no mesmo lugar e chama isso de jornalismo. Ninguém faz a única pergunta que interessa: quem está bancando essa euforia elétrica que insiste em existir mesmo quando o consumidor, livre para escolher, prefere outra coisa?

Carro elétrico não é produto de mercado, é produto de decreto. Onde o consumidor decide com o próprio dinheiro, o elétrico empaca; onde o burocrata decide com o dinheiro alheio, ele floresce. A Europa proibiu por canetada o motor a combustão a partir de 2035, e de repente todas as montadoras descobriram, num surto coletivo de consciência ambiental, a vocação eletrificadora. Que coincidência tocante. O mesmo capitalismo que produzia Golfs a diesel há cinco anos virou guardião de Gaia da noite para o dia, não por iluminação interior, mas porque o Estado apontou a arma fiscal para a têmpora do CEO. Chamam isso de transição energética. O nome correto é planificação central com logotipo bonito.

Siga a trilha do dinheiro e o conto de fadas se desfaz. Cada ID. Polo que sai da linha de montagem carrega no preço, embutido como um cisto invisível, o subsídio que o contribuinte alemão pagou para a fábrica existir, o crédito de carbono que o governo inventou para tornar o concorrente a gasolina artificialmente caro, o imposto sobre combustível fóssil que financia o desconto do elétrico, e a infraestrutura de carregamento bancada por tarifa pública. O comprador acha que está fazendo um bom negócio porque o adesivo na vitrine diz tantos euros. O verdadeiro preço está espalhado em mil lugares do orçamento estatal, pago por gente que jamais entrará num desses carros. É o velho truque do mágico: a moeda some de uma mão e reaparece na outra, e a plateia aplaude o milagre.

O detalhe saboroso é o inimigo escolhido para a narrativa, o BYD Dolphin. A Volkswagen vende o ID. Polo como bastião europeu contra a invasão chinesa, e o europeu de bem, indignado com Pequim, abre o talão de cheques patriótico. Acontece que o capital que move a BYD veio dos mesmos subsídios estatais, só que num sotaque diferente. O Partido Comunista chinês banca o seu campeão nacional, a União Europeia banca o dela, e os dois competem pela glória de produzir, com prejuízo permanente, o veículo que ninguém pediu. É a Guerra Fria das tomadas, financiada pelos dois lados pelo mesmo personagem invisível, o pagador de impostos, que perde sempre, ganhe quem ganhar. Os antigos chamavam essa lógica de mercantilismo, e custou à Espanha três séculos de decadência. Reembalaram em verde e venderam como inovação.

Há ainda a piada técnica, contada com cara séria. Anunciam 455 quilômetros de autonomia como se fosse conquista heroica, quando qualquer hatch a combustão dos anos noventa fazia oitocentos com um tanque de quarenta litros e enchia em três minutos no posto da esquina. Recuamos meio século em conveniência prática e celebramos o retrocesso como progresso, porque o cartaz tem a palavra sustentável escrita em fonte bonita. As coisas são o que são, não o que o marketing diz que são. Um carro que precisa de oito horas para abastecer, perde trinta por cento da capacidade no inverno, e depende de uma rede elétrica que ninguém ousa expandir porque expandir significa construir usina nuclear ou termoelétrica, é um experimento social caro, não uma solução de transporte.

No fim, a pergunta volta inteira ao ponto de partida. Quem paga é o trabalhador que financia, via tributo, o brinquedo elétrico do executivo de classe média alta. Quem recebe é a montadora subsidiada, o burocrata que regulamenta o subsídio, o jornalista que vive de publicidade da montadora, e o político que se elege prometendo salvar o planeta com o cartão de crédito do vizinho. O ID. Polo é menos um carro do que um símbolo, e o símbolo diz exatamente isto: enquanto houver um Estado disposto a transferir riqueza dos pobres para os ricos sob bandeira moral, haverá fila de empresários eletrificados, de jornalistas extasiados e de tolos batendo palma para o próprio assalto.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.