A Volvo apresentou o ES90, sedã elétrico premium com até 700 quilômetros de autonomia, arquitetura de 800 volts, recarga rápida e a promessa de bater de frente com BMW i5, Mercedes EQE e Audi A6 e tron. A imprensa especializada bate palma, descreve a curva do teto, suspira diante da tela central. Tudo lindo, tudo limpo, tudo silencioso. E é justamente o silêncio que merece atenção: ninguém pergunta por que, de repente, todas as grandes marcas europeias decidiram, no mesmo ano, no mesmo trimestre, fabricar o mesmo tipo de carro. Quando todo mundo concorda, desconfie. Concorrência de verdade gera diversidade, não procissão.

O ES90 não nasceu do gênio nórdico nem da vontade soberana do consumidor. Nasceu de Bruxelas. A União Europeia decretou, com a solenidade de quem distribui indulgências medievais, que a partir de 2035 nenhum carro novo a combustão poderá ser vendido no bloco. Tradução prática: as montadoras foram empurradas, à força de canetada, para um produto que o mercado, deixado em paz, ainda não pediu na escala que se exige. O que parece inovação é obediência. O que parece futuro é cumprimento de meta regulatória. A mão invisível que desenhou esse sedã usa luva de burocrata.

Siga o dinheiro e o cenário fica menos elegante. A bateria do bicho depende de lítio, níquel e cobalto, extraídos em sua maioria fora da Europa, frequentemente em condições que nenhum publicitário ousa filmar. A energia que abastece o tomada em Estocolmo vem, em parcela considerável, de termelétricas alemãs que voltaram a queimar carvão depois que a Alemanha resolveu desligar suas usinas nucleares por razões mais teológicas que técnicas. O carro é limpo no folheto e sujo na cadeia. Mas o contribuinte europeu paga o subsídio à compra, o contribuinte paga o ponto de recarga, o contribuinte paga o crédito tributário à montadora, e o consumidor de carro popular paga, no preço inflado do seu hatch a combustão, a multa de emissões que financia o luxo do sedã do vizinho. Os pobres compram a virtude dos ricos a prestação.

Quem ganha nessa coreografia? Os fabricantes premium, que adoram regulação dura porque ela esmaga o concorrente pequeno, encarece a entrada no mercado e blinda o oligopólio. Ganham os bancos verdes, que emprestam a juros camaradas para projetos rotulados de sustentáveis. Ganham as consultorias de ESG, indústria parasitária que cobra para certificar virtude. Ganham os políticos, que cortam fitas de fábricas convertidas com dinheiro público e posam ao lado do protótipo. Perde o operário da fábrica de motor a combustão que vai fechar. Perde o mecânico de bairro, que não tem ferramenta para mexer em pacote de bateria de alta tensão. Perde o sujeito comum, que vai pagar mais caro por mobilidade enquanto ouve sermão sobre o planeta.

A peça publicitária quer convencer que o ES90 é escolha. Não é. É o que sobrou depois que o cardápio foi rasgado. Premissa maior: o governo proíbe o concorrente. Premissa menor: a montadora oferece apenas o produto autorizado. Conclusão: o consumidor compra o que mandam, achando que escolheu. Chamam isso de transição energética. O nome honesto seria planejamento industrial com verniz ecológico, exatamente o tipo de arranjo que, em outros séculos, com outros pretextos, sempre terminou em escassez, fila e desculpa oficial. Trocaram a estrela vermelha pela folhinha verde, mas o mecanismo é o mesmo: alguém em um gabinete decidindo, por você, o que é virtuoso desejar.

O sedã é bonito, isso ninguém discute. Engenharia sueca raramente decepciona. O problema não está no carro, está no andaime invisível que o sustenta, na conta que chega disfarçada de imposto, de tarifa de energia, de inflação, de oportunidade perdida pelo concorrente que não pôde existir. Quando o ES90 passar pela rua, em silêncio aveludado, lembre-se de que silêncio, em política, quase nunca é gratuito. Alguém pagou para você não ouvir o barulho.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.