Daniel Vorcaro, o homem por trás do Banco Master, está caçando novo criminalista depois que José Luis Oliveira Lima saiu da sua defesa. O nome da vez seria Daniel Bialski, outro peso pesado da advocacia paulistana, dessas figuras que cobram por hora o que um aposentado do INSS recebe num ano inteiro. A notícia parece fofoca de cartório, mas é exatamente nesses detalhes laterais que se enxerga como a máquina funciona de verdade. O cliente troca de advogado como se estivesse trocando de gravata para um jantar diplomático, e ninguém estranha. Já tente você, leitor honesto, perder seu defensor público no meio do processo e ver o que acontece.

Convém lembrar quem é o personagem. O Banco Master construiu uma montanha de papéis podres vendidos a fundos de pensão, prefeituras, autarquias e, com generosidade típica de quem brinca com dinheiro alheio, foi socorrido pelo aparato estatal antes de implodir de vez. A história do capitalismo de compadrio brasileiro é sempre essa: o lucro fica privado enquanto a conta, lentamente, vai sendo empurrada para o contribuinte que nunca pisou na sala de reuniões. E quando o castelo cai, o protagonista não vai para o banco dos réus de qualquer jeito. Ele monta um time de advogados que custa mais do que orçamentos municipais inteiros.

Há uma simetria perversa no espetáculo. Bialski é o mesmo nome que defendeu figurões de operações que renderam manchetes por anos, especialista em encontrar a vírgula que liberta. Não é crítica à profissão, advogado existe para isso mesmo, defender até o pior dos pecadores faz parte do arranjo civilizatório. A questão é outra: o sistema judicial brasileiro foi calibrado de tal forma que a qualidade da defesa é diretamente proporcional ao saldo bancário do acusado. Quem tem dinheiro contrata escritórios que conhecem cada juiz pelo apelido. Quem não tem espera meses por uma audiência que pode ser remarcada por um espirro do escrivão.

Siga a trilha. Os honorários desses criminalistas de elite não saem do bolso do santo. Saem, em última instância, dos mesmos cofres que foram esvaziados pelas operações que levaram o cliente ao tribunal. É dinheiro de credor, de cotista, de fundo de pensão de servidor, blindado em estruturas societárias que o leigo não entende e o investigador, quando é honesto, leva uma década para destrinchar. O advogado caro é parte do custo operacional do negócio, contabilizado antes mesmo da fraude começar. Chama-se previdência criminal.

E aqui aparece o silogismo desconfortável. Se a justiça depende de quem tem mais dinheiro para pagar advogados melhores, e se o dinheiro para pagar esses advogados vem frequentemente do próprio crime sob julgamento, então o sistema não pune o crime: ele o financia. A conclusão é inevitável, doa em quem doer. Não é falha do regime, é o regime funcionando exatamente como foi desenhado por aqueles que se beneficiam dele. O reizinho do andar de cima troca de manto e segue de pé, enquanto o súdito comum apanha por dirigir sem cinto.

Resta a pergunta que nenhum noticiário ousa formular. Quem paga o Bialski da vida? E quem recebe, no fim da linha, a absolvição ou a prescrição cuidadosamente construída em petições intermináveis? Enquanto a resposta for a mesma, ou seja, paga o lesado e recebe o esperto, qualquer discurso sobre combate à corrupção é cosmético de palco. O cidadão honesto financia, sem saber, a defesa daqueles que o roubaram. É o golpe perfeito: a vítima paga o advogado do bandido e ainda aplaude o devido processo legal.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.