Seis empreendimentos na capital paulista, quinhentos e setenta e sete apartamentos, fundos imobiliários ancorados pelo fundador do Banco Master, e do outro lado da mesa a velha conhecida Odebrecht, hoje rebatizada para fugir do cheiro mas com o mesmo DNA. A notícia chega embrulhada na assepsia do jornalismo de negócios, como se fosse apenas mais uma parceria entre cavalheiros do mercado. Não é. É o retrato em alta resolução de como o capitalismo de compadres se reinventa no Brasil, trocando de roupa entre uma CPI e outra, sempre com os mesmos atores, sempre com o mesmo enredo, sempre com o mesmo cofre comum.
Pergunte ao porteiro do prédio quem paga e quem recebe. O comprador do apartamento, esse cidadão de bem que financiou trinta anos da própria vida para ter um teto, está bancando, sem saber, a costura entre um banco que se notabilizou por captar a juros altíssimos para emprestar a juros maiores ainda e uma construtora cuja contabilidade foi por décadas o departamento de marketing do Foro de São Paulo. O dinheiro entra pela porta da frente vestido de sonho da casa própria e sai pelos fundos vestido de retorno garantido para quem nunca dormiu numa obra.
O esquema tem a elegância dos clássicos. Um banco capta poupança popular oferecendo rendimentos que desafiam a aritmética. Esse mesmo banco monta fundos imobiliários que injetam capital em construtoras de origem nebulosa. As construtoras erguem torres em metro quadrado paulistano, cujo preço é artificialmente inflado pelo crédito subsidiado de bancos públicos, pela escassez fabricada por regulações urbanísticas que travam novos lançamentos, e pelo apetite de fundos que precisam alocar bilhões em algum lugar. Fecha o circuito quando o FGC, ou seja, o bolso de todos os correntistas do país, aparece como rede de proteção caso a roleta pare na cor errada. Privatizam o lucro, socializam o tombo, e ainda posam para a foto na revista de domingo.
A Odebrecht entrar nessa equação não é detalhe, é assinatura. Uma empresa que confessou, por escrito e em juízo, ter mantido um departamento dedicado à compra de governos não desaparece porque mudou o nome na fachada. Ela apenas migra para os negócios onde o regulador é distraído e o sócio é generoso. O mercado imobiliário de luxo, blindado pela complexidade das incorporações e pela opacidade dos fundos fechados, é o esconderijo perfeito. Lá dentro, ninguém pergunta de onde vem nem para onde vai, basta que o boleto seja pago em dia.
O silogismo é brutal na sua simplicidade. Toda parceria entre um banqueiro de captação agressiva e uma construtora condenada por corrupção sistêmica é, por definição, uma operação de risco assimétrico. Toda operação de risco assimétrico no Brasil termina com o contribuinte na conta. Logo, esses quinhentos e setenta e sete apartamentos já têm um fiador, e ele não assinou nada, não foi consultado, não recebe comissão. Esse fiador é quem trabalha das sete às sete e descobre, no final do mês, que a inflação comeu o salário, que o imposto comeu o resto, e que ainda há um pedacinho do que sobrou destinado a garantir o sono tranquilo de quem nunca o garantiu para ninguém.
Repare na coreografia. Quando o varejo bancário de risco implode, vira manchete por uma semana e some. Quando a construtora reincidente reaparece sob novo CNPJ, a imprensa séria chama de recuperação. Quando os dois se encontram para vender prédio em bairro nobre, vira caderno de negócios e ninguém se incomoda. É o mesmo truque de mágica do tio bêbado na festa de família, só que com o público torcendo pelo coelho. Cabe ao leitor, sempre o leitor, fazer a única pergunta que importa, aquela que abre e fecha qualquer análise honesta sobre o que se passa neste país. Quem paga? E, principalmente, quem recebe?
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.