A cena merece ser fixada na retina antes que o noticiário a dilua na próxima manchete. Um motorista é despachado até a residência de um senador da República para retirar documentos, mas com uma instrução prévia, peculiar, quase litúrgica: ele não pode saber o que está transportando. A encomenda não vai direto ao destinatário final, segue antes para um escritório indicado pelo próprio banqueiro, onde sofre uma espécie de tratamento, é "revisada", e só então, já devidamente processada, chega às mãos de um servidor do gabinete parlamentar. É a cadeia de custódia da impunidade, montada com o mesmo cuidado com que se transporta plutônio.
Repare na engenharia. Não se trata de um envelope esquecido em cima de uma mesa, não é o desleixo amador de quem se atrapalha com a burocracia. É protocolo. Há um remetente que sabe, um intermediário que processa, um destinatário que recebe e, no meio da operação, um intencionalmente cego, escolhido justamente porque sua ignorância é a fiança da empreitada. O motorista é o álibi ambulante, a testemunha pré-fabricada para responder, em eventual depoimento, a frase que vale ouro em Brasília: "eu não sabia de nada". Quem desenhou esse fluxograma não improvisou, estudou.
E aqui o cidadão honesto precisa fazer uma pergunta simples, dessas que os comentaristas de televisão evitam porque a resposta queima a mão. Por que documentos legítimos, de origem legítima, com finalidade legítima, precisariam de um trajeto tortuoso passando por um escritório terceirizado de "revisão" antes de chegar ao gabinete? Recibo de padaria não exige rota de fuga. Contrato limpo não viaja disfarçado. Quando o papel anda mascarado, é porque o conteúdo não suporta a luz do sol, e quem monta o disfarce sabe exatamente o que está escondendo. As coisas são o que são, e o que se faz às escondidas tem o nome que se faz às escondidas.
Agora siga o dinheiro, que é o esporte favorito desta coluna. De um lado, um banqueiro com interesses regulatórios, sujeito ao humor de quem legisla sobre o sistema financeiro. Do outro, um parlamentar com a caneta que pode aliviar ou apertar o cerco. No meio, um cardápio documental com escala técnica para "ajustes". Não é preciso ser perito forense para entender que o produto sendo transportado naquele carro não era papel, era influência convertida em formato físico, mercadoria de altíssimo valor agregado num mercado em que o consumidor final não tem escolha de fornecedor, porque o fornecedor é o monopolista da força institucional.
É sempre a mesma novela com elenco rotativo. O cidadão comum acorda às cinco da manhã, paga imposto sobre o pão, imposto sobre o ônibus, imposto sobre o salário, imposto sobre o imposto, e no andar de cima a casta política e seus parceiros financeiros operam um sistema de mensageria criptografada à base de motoristas analfabetos da própria carga. O súdito medieval pelo menos via o cobrador chegar a cavalo, com brasão e tudo. O contribuinte moderno é mais sofisticado, paga a conta sem nem saber que a entrega foi feita, porque o entregador também não sabia. Toda a estrutura é desenhada para que ninguém saiba, exceto os dois pontos das pontas, que sabem demais.
Resta a pergunta que nenhum partido vai responder porque todos eles, em algum momento, já fretaram o mesmo tipo de motorista. Se o conteúdo era inocente, por que a operação parecia contrabando? Se a operação parecia contrabando, por que insistem em chamar de gestão pública? Quem paga essa engenharia toda é o sujeito que jamais foi consultado sobre nada, o pagador compulsório do baile alheio. Quem recebe são os de sempre, os que dominaram a arte ancestral de transformar opacidade em patrimônio. E o motorista, coitado, segue dirigindo, único personagem honesto da trama, justamente porque foi escalado para não entender.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.