Entre os dias oito e nove de junho, o homem que comanda o maior aparato de vigilância e repressão jamais montado na história humana embarca rumo à Coreia do Norte para apertar a mão do menino gordo que herdou um país transformado em campo de concentração a céu aberto. Xinhua e KCNA, as agências oficiais, isto é, os departamentos de propaganda de dois regimes que assassinaram dezenas de milhões dos próprios cidadãos no século passado, anunciam o evento com a solenidade de quem narra a coroação de um santo. E o mundo, treinado a engolir comunicados de ditadura como se fossem boletins meteorológicos, lê a manchete e vira a página.
Convém perguntar, antes de qualquer floreio geopolítico, quem paga essa visita. A resposta é incômoda e está espalhada em três continentes. Paga o camponês chinês cujo salário é arrancado para sustentar o Partido. Paga o norte coreano que come capim enquanto os foguetes do amado líder são polidos com aço importado. E paga, sobretudo, o consumidor ocidental que financiou durante quatro décadas a ascensão industrial de Pequim acreditando na fábula de que comércio amansa tiranos. Amansou nada. Engordou. Tirano alimentado vira tirano confiante, e tirano confiante visita seus pares para combinar a próxima rodada de chantagens nucleares.
O encontro tem coreografia de ópera imperial e propósito de cartel. Pequim precisa de Pyongyang como capacho útil para irritar Washington sem precisar sujar diretamente as próprias mãos. Pyongyang precisa de Pequim como linha de oxigênio, porque sem o petróleo, o trigo e a eletricidade que atravessam o rio Yalu o regime de Kim duraria o que dura uma vela acesa em corredor de vento. É uma sociedade comercial entre o agiota e o pistoleiro, na qual o agiota empresta a munição e cobra juros em forma de obediência. Chamar isso de aliança fraterna é o mesmo que chamar o vínculo entre o cafetão e o capanga de amizade sincera.
A imprensa internacional, devidamente domesticada por décadas de cursos sobre relações internacionais ministrados por gente que jamais perdeu uma propriedade nem uma noite de sono, descreverá tudo isso como diálogo, distensão, pragmatismo asiático. Palavras bonitas servem para anestesiar o leitor diante do óbvio: dois Estados monopolistas da violência, ambos construídos sobre cadáveres, ambos sustentados por confisco sistemático, sentam à mesma mesa para dividir esferas de influência sobre vidas que não lhes pertencem. Não há aqui nação dialogando com nação. Há um aparelho de extorsão visitando outro aparelho de extorsão para sincronizar agendas.
O detalhe que ninguém quer enfrentar é que esse abraço entre tiranetes só é possível porque o capital ocidental, durante quatro décadas, transferiu tecnologia, fábricas, patentes e divisas para o regime de Pequim em troca de margens trimestrais. Quem assinou esses contratos não foi o povo americano nem o trabalhador europeu, foi a elite financeira que privatizou o lucro e socializou as consequências. Agora a conta chega em forma de mísseis balísticos que sobrevoam o mar do Japão e de submarinos nucleares ancorados em portos que ontem fabricavam camisetas baratas. O cínico ri, o ingênuo se assusta, e o contribuinte ocidental será chamado, em breve, a financiar o rearmamento que poderia ter sido evitado se alguém tivesse ousado dizer não no momento certo.
No fim, o que se vê em Pyongyang é o retrato fiel do que acontece quando se acredita que governos negociam pela paz. Governos negociam por sobrevivência, por mercado cativo, por súdito mais obediente. A visita de Xi a Kim não inaugura nada, apenas confirma a velha regra segundo a qual quem detém o monopólio da força sempre encontrará outro detentor do mesmo monopólio para combinar a divisão do espólio. E o espólio, sempre, somos nós.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.