Xi Jinping recebeu Sergei Lavrov em Pequim com aquela pompa protocolar que os regimes adoram: tapete vermelho, sorriso ensaiado, comunicado conjunto cheio de palavras como "multipolaridade" e "cooperação mutuamente benéfica". Traduzindo do mandarim burocrático para o português dos pagadores de impostos: a China quer gás e petróleo russo com desconto de liquidação, e a Rússia precisa de quem compre o que o Ocidente sancionou. Nenhum dos dois se importa com "ordem internacional" ou "estabilidade global". Importam-se com poder e com dinheiro, nessa exata ordem, porque o segundo é instrumento do primeiro.
A chamada aliança energética sino-russa é, na prática, o maior contrato de fornecimento de combustível fóssil do século, e convém perguntar quem financia a estrutura que torna isso possível. A Rússia banca sua diplomacia com receita de exportação de hidrocarbonetos; a China, com o superávit comercial extraído de uma classe trabalhadora que recebe centavos por hora enquanto o Partido exibe arranha-céus de vidro. Nos dois lados, o cidadão comum é matéria-prima. O camponês russo morre em trincheira ucraniana para que o gasoduto flua; o operário chinês monta iPhone em jornada de doze horas para que Pequim tenha caixa para comprar influência em três continentes. E o Ocidente? O Ocidente reage com "preocupação", que é o som que um governo faz quando não pretende fazer absolutamente nada que contrarie seus próprios interesses de curto prazo.
A articulação de uma visita de Putin à China não é gesto diplomático; é declaração de guerra econômica em câmera lenta. Quando dois Estados que juntos controlam a maior reserva de recursos naturais do planeta, o maior exército nuclear e a maior população decidem coordenar suas políticas, o resultado não é "equilíbrio multipolar", é duopólio imperial com características novas. O mesmo padrão se repete desde que o mundo é mundo: impérios não se aliam por amizade, aliam-se por conveniência, e rompem a aliança no instante em que a conveniência muda. Stálin e Hitler assinaram um pacto de não-agressão em 1939; dois anos depois, os tanques alemães cruzavam a fronteira soviética. A história não se repete, dizem, mas rima com insistência irritante.
O que ninguém no noticiário convencional vai dizer é o óbvio: essa aproximação só é possível porque o próprio Ocidente construiu a armadilha em que se encontra. Décadas de política energética suicida, regulações ambientais que encareceram artificialmente a energia doméstica, subsídios bilionários a fontes "limpas" que não sustentam uma rede elétrica em dia de inverno, tudo isso empurrou a Europa para a dependência do gás russo e empurrou a Rússia para os braços da China quando as sanções vieram. O Estado cria o problema, vende a solução, e manda a fatura para o contribuinte. Sempre foi assim. A "transição energética" europeia não foi planejada para salvar o planeta; foi planejada para alimentar uma rede de ONGs, consultorias e fundos de investimento que lucram com cada megawatt de energia eólica que não gira quando o vento para.
E o Brasil nisso? O Brasil, como de costume, assiste ao jogo dos gigantes com aquela expressão de quem chegou na festa sem convite. Itamaraty emite nota genérica, presidente posa de mediador, e enquanto isso o agronegócio brasileiro depende de fertilizantes russos e o mercado consumidor chinês dita o preço da soja. Somos colônia de matéria-prima com assento no Conselho de Segurança como observador de luxo. A soberania, aquela palavra bonita que os discursos presidenciais adoram, não existe quando seu adubo vem de Moscou e seu comprador mora em Xangai. Quem paga? Você, que vê o preço do feijão subir toda vez que um navio de grãos muda de rota. Quem recebe? Os mesmos de sempre: os Estados e seus operadores, que transformam cada crise em oportunidade de expansão do próprio poder.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.