Existe um tipo específico de contradição que só prospera na política brasileira: o sujeito que odeia corruptos se elegeu com voto, o homem que despreza o Estado ocupa o Palácio Tiradentes, o empresário que abomina o político acaba de anunciar que quer ser o presidente. Romeu Zema disse, com a solenidade de quem acabou de descobrir a pólvora, que detesta políticos e que o diabo em pessoa despachou o PT para Minas Gerais. Afirmação corajosa, vinda de alguém que acumula dois mandatos como governador e alimenta, com disposição invejável, a ambição de um terceiro cargo eletivo. Se o diabo mandou o PT, alguém precisa perguntar quem mandou o Zema, porque o percurso é idêntico: eleição, cargo, salário pago pelo contribuinte, orçamento controlado pela máquina e candidatura ao próximo posto disponível.
A retórica do político que odeia a política tem história longa e nenhuma originalidade. É o discurso do outsider eterno, aquele que entra no sistema para destruí-lo mas que, curiosamente, vai ficando, vai crescendo, vai acumulando mandatos e influência como qualquer outro habitante do mesmo sistema que prometeu demolir. O truque funciona porque o eleitor médio, exausto com décadas de pilhagem institucionalizada, aceita qualquer narrativa de ruptura sem perguntar pela substância. Zema é empresário, bom. Empresário que se elegeu governador vira político. Político que pede voto para presidente vira o que, exatamente? O homem que detesta o que se tornou, candidato ao grau máximo da espécie que abomina. A lógica não fecha, mas a campanha, essa fecha muito bem.
O argumento do "diabo que mandou o PT" merece atenção especial, não pela teologia, mas pela função política do enunciado. Quando se invoca o sobrenatural para explicar um desastre administrativo, é porque a análise concreta é mais incômoda do que conveniente. O PT não chegou a Minas Gerais por intervenção demoníaca. Chegou pelo voto, pela máquina, pelo mesmo mecanismo de incentivos que faz qualquer partido crescer onde há dinheiro público disponível para distribuir. Minas Gerais estava quebrada antes do PT e continuou tecnicamente insolvente durante o governo Zema, que por anos brigou na Justiça para não pagar a dívida com a União. Isso não é o diabo. Isso é o Estado funcionando exatamente como sempre funcionou: alguém gasta, outro paga, e o político no meio culpa o predecessor enquanto prepara a próxima conta.
Siga o dinheiro, sempre. Zema diz que entrou na política por causa da crise econômica. Crise econômica de quem? De Minas Gerais, que deve ao governo federal uma fortuna que ele recusou a honrar, negociando moratórias, liminares e acordos enquanto o estado seguia funcionando, seguia pagando servidores, seguia existindo como entidade viva sugando receita e distribuindo benefícios. Quando um empresário "entra na política por causa da crise", vale perguntar: crise para quem? Para os contribuintes que financiam o aparato que ele agora comanda, certamente. Para ele, que passou de dono de rede de lojas de material de construção a governador de um dos maiores estados do Brasil, a crise parece ter sido extraordinariamente generosa.
O que separa Zema do petista que ele tanto despreza não é a natureza do poder que exerce, é a narrativa que constrói em torno desse poder. Ambos controlam orçamentos públicos. Ambos nomeiam cargos. Ambos dependem do voto para continuar existindo como fenômeno político. Ambos prometem eficiência e entregam, na melhor das hipóteses, uma gestão marginalmente menos catastrófica que a anterior. A diferença está no vocabulário: um fala em justiça social, o outro fala em gestão empresarial. O contribuinte paga os dois do mesmo jeito, com o mesmo dinheiro, arrancado pelo mesmo mecanismo de confisco legal que nenhum dos dois tem qualquer intenção real de abolir, porque sem esse mecanismo nenhum dos dois teria razão de existir como político.
Zema detesta políticos. O eleitor que acredita nisso é o mesmo eleitor que vai pagar, mais uma vez, pelo prazer de ser governado por alguém que prefere não se enxergar no espelho. A pergunta final não é se o diabo mandou o PT a Minas. A pergunta é quem paga a conta quando o próximo salvador da pátria também descobrir, depois da eleição, que o Estado é grande demais para demolir e conveniente demais para abandonar.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.