Vamos começar pelo óbvio que a imprensa séria insiste em não enunciar com precisão cirúrgica: quando um governador de Minas Gerais, estado que deve mais de um trilhão de reais e obteve a maior moratória da história republicana brasileira, resolve apontar o dedo para a "crise moral" do Judiciário, a primeira pergunta não é se ele tem razão. A primeira pergunta é o que ele ganha dizendo isso agora, na antevéspera de uma candidatura presidencial. O diagnóstico pode ser correto. O médico pode ser suspeito. E ambas as coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, o que torna a análise mais interessante e a política mais nauseante do que de costume.
Dito isso, o diagnóstico em si merece ser levado a sério, não por causa de quem o faz, mas porque a realidade insiste em confirmá-lo todos os dias. O Judiciário brasileiro não é apenas "contaminado", palavra que sugere acidente e vitimização, como se a instituição fosse um rio que alguém poluiu. Ele é estruturalmente construído para ser impermeável à accountability. Um poder que define seus próprios salários, que interpreta a Constituição para expandir sua própria jurisdição, que pune quem o critica e absolve quem o financia, não foi contaminado por agentes externos. Ele amadureceu exatamente como foi plantado. A toga não é a vítima do sistema. A toga é o sistema.
Siga o dinheiro, porque ele nunca mente mesmo quando todos os outros mentem. O funcionalismo judicial brasileiro consome uma fatia do orçamento público que envergonharia qualquer país do mundo desenvolvido. Juízes federais, desembargadores, ministros de tribunais superiores, somados à infraestrutura de assessores, servidores, imóveis, viagens e penduricalhos constitucionalmente blindados, representam um custo permanente que o contribuinte paga independentemente do resultado entregue. E o resultado entregue é, para ser generoso, variável. Para ser preciso: dependente de quem está sendo julgado. O empresário de médio porte que sonegou imposto vai a júri popular. O magistrado que desviou verba de previdência recebe aposentadoria compulsória. A simetria entre crime e punição, que é o fundamento mínimo de qualquer ordem jurídica, simplesmente não existe quando o réu usa toga.
A "farra dos intocáveis" que Zema anuncia como revelação é, na verdade, a lógica inevitável de qualquer corporação que conquista poder sem freios externos. Roma não caiu porque os bárbaros eram fortes. Caiu porque as instituições internas foram compradas, uma a uma, por quem tinha interesse em que elas parassem de funcionar para o povo e começassem a funcionar para si mesmas. O Senado romano não foi abolido: foi esvaziado. Os tribunais não foram fechados: foram capturados. A forma permaneceu intacta, o conteúdo foi substituído, e a maioria da população continuou acreditando que vivia numa república porque os prédios ainda tinham as colunas de mármore no lugar certo. O Brasil de 2026 tem suas colunas de mármore muito bem posicionadas. O Supremo Tribunal Federal tem prédio lindo, sessões solenes e transmissões ao vivo. O que não tem é ninguém de fora para revisar se aquilo que está sendo decidido ali tem alguma relação com a lei que foi escrita para todos.
Renovação no Senado, por sua vez, é a promessa mais barata da política brasileira, mais barata inclusive do que a própria política brasileira, que já é bastante acessível para quem tem os recursos certos. Senadores novos chegam e descobrem, geralmente em menos de um mandato, que há regras não escritas mais poderosas do que o Regimento Interno. Descobrem quem financia campanha, quem distribui relatoria de projetos, quem senta à cabeça da mesa nos almoços que não constam na agenda pública. A renovação formal sem reforma estrutural é trocar o ator sem mudar o roteiro. E o roteiro está muito bem escrito por quem nunca aparece nos créditos.
No fim, o que Zema fez foi aquilo que todo político competente faz quando quer escalar: encontrou um alvo com alta rejeição popular, apontou o dedo com precisão suficiente para parecer corajoso e imprecisão suficiente para não se comprometer com nada concreto. Criticar o Judiciário sem propor extinção de privilégios, auditoria externa vinculante e fim da autoproteção corporativa é como denunciar que o rio está cheio de piranha e depois sugerir que a solução é contratar um guia de pesca. Quem paga o guia? Você. Quem controla o rio? As piranhas. E o guia, no dia seguinte, está almoçando com elas.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.