Antes de uma reunião que deveria tratar de articulação política séria, o governador de Minas Gerais resolveu brincar de teatro de arena e simulou uma cadeirada num ex candidato à prefeitura de São Paulo, imitando cena que dois anos antes envolveu um apresentador de televisão metido a salvador da pátria. Os dois riram, os assessores bateram palmas, os celulares filmaram, e mais um pedaço do debate público foi rebaixado ao nível de vídeo viral de grupo de tiozão no WhatsApp. O espetáculo é gratuito só na aparência, porque quem paga a conta desse palhaçal, como sempre, é o contribuinte que sustenta o palácio, a comitiva, o motorista, o cafezinho e o salário de quem grava o meme.

O interessante é observar o mecanismo. Um sujeito que se vende como alternativa liberal ao establishment encena agressão bufa contra um empresário que se vende como alternativa antissistema, ambos disputando o mesmo nicho eleitoral, ambos dependentes do mesmo algoritmo, ambos convertendo política em entretenimento porque descobriram que raciocínio dá menos engajamento que cadeirada. A lógica é de ferro: se o eleitor recompensa palhaçada, o político entrega palhaçada; se premiasse coerência, talvez tivéssemos coerência. Estamos no circo romano com wifi, e a multidão já nem exige pão, exige apenas o próximo clipe de quinze segundos.

Siga o dinheiro, que é onde a fantasia se desfaz. Essa articulação toda, batizada de união da direita contra o atual ocupante do Planalto, não é concurso de virtude cívica, é disputa por tempo de televisão, fundo partidário e as gordas fatias do orçamento secreto que ninguém teve coragem de extinguir. O empresário que articula apoios não está num mosteiro, está num tabuleiro onde cada peça movida significa cargo, emenda, espaço em ministério futuro, concessão, contrato. O governador que finge a cadeirada não está num convento, está calculando quantos votos aquela risada compra no interior. A piada custa zero para eles e bilhões para você, porque a máquina que sustenta esse faz de conta é a mesma que retira quase metade do que você produz todo ano em nome de um bem comum que nunca chega.

Há um truque antigo que funciona há séculos. O imperador romano distribuía trigo e espetáculo enquanto desvalorizava a moeda raspando prata dos denários; o povo aplaudia os jogos e não percebia que estava sendo roubado pela inflação. Hoje a prata virou real digital, o denário virou pix, e a cadeirada faz o papel do leão no coliseu. Enquanto o eleitor ri do vídeo, o Banco Central emite, o Tesouro se endivida, o gasto público explode, a tarifa de energia sobe, o combustível sobe, o feijão sobe, e ninguém liga os pontos porque a atenção foi capturada pelo circo. É a política reduzida a meme, e o meme é a anestesia perfeita para o bolso que sangra.

Julgue o político não pelo que ele diz no palanque, mas pelo que ele faz com o dinheiro que tirou de você. Quem finge cadeirada hoje assina decreto amanhã, e decreto não é piada, é ordem armada do único sujeito do planeta autorizado a prender, multar e confiscar quem não obedecer. O problema não é a brincadeira isolada, o problema é a naturalização de uma classe política que trata o poder como brincadeira de colégio interno enquanto gerencia o monopólio da violência sobre trinta milhões de famílias. Rir com eles é autorizar o próximo boleto. E o próximo boleto vem, sempre vem, porque essa é a única coisa que esses sujeitos entregam com pontualidade suíça.

A direita que se articula em almoços regados a performance precisa decidir se quer ser oposição séria ou trupe de esquete. O atual ocupante do Planalto adoraria continuar disputando eleição contra bufões, porque bufão é previsível e derrotável. O adversário que ele teme é o que abre planilha, corta gasto, devolve liberdade econômica, desmonta privilégio e fala a palavra proibida nesse país: menos Estado. Enquanto o palco for ocupado por cadeirada de mentira, o roubo de verdade continua acontecendo nos bastidores, silencioso, diário, institucional, com carimbo, com lei e com a sua assinatura automática na declaração anual. Quem paga? Você. Quem recebe? Eles todos, inclusive os que riem da piada.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.