Há um momento clássico em toda campanha eleitoral brasileira que funciona como um relógio suíço, tão previsível quanto o carnaval em fevereiro e a crise fiscal em março: o político que se anuncia diferente. Dessa vez é Zema. "Direita sem corrupção", disse o ex-governador de Minas Gerais com a tranquilidade de quem acabou de inventar a roda. O que ninguém no salão teve a elegância de perguntar é simples: direita sem corrupção em relação ao quê, exatamente? A referência é tão baixa que qualquer coisa acima do chão parece montanha.

Vamos ao concreto, porque o concreto é o único solo onde o raciocínio sobrevive. Minas Gerais, estado sob administração Zema por dois mandatos, encerrou o ciclo com um dos piores passivos fiscais do país, uma crise no sistema previdenciário estadual que virou crônica, servidores com salários parcelados e uma dívida com a União que nenhuma retórica de eficiência conseguiu dobrar. Isso não é acusação, é balanço. A pergunta legítima não é se houve caixa dois ou desvio escandaloso, mas sim: onde foi o dinheiro que entrou, e por que o estado saiu do período mais exatamente como entrou? Quando o gestor "sem corrupção" termina o mandato e a máquina pública continua disfuncional, tributando o mesmo, gastando o mesmo, endividando o mesmo, o problema não é necessariamente o furto. Às vezes é a arquitetura. E a arquitetura ninguém questiona, porque a arquitetura não aparece no noticiário policial.

O conceito de "direita sem corrupção" pressupõe que a corrupção é um acidente de percurso, um desvio moral individual que contamina uma estrutura saudável. É uma visão confortável, palatável, e completamente invertida. A corrupção não é o bug do sistema; é a feature. Quando o Estado detém o monopólio da concessão, da licença, da regulação, do subsídio e da multa, ele cria automaticamente um mercado paralelo onde esses poderes são precificados. Não é teoria, é história universal. Da Roma imperial aos cartórios brasileiros do século XXI, o padrão é idêntico: quem tem o poder de dizer não cobra para dizer sim. Zema pode ser pessoalmente honesto, pode dormir com a consciência limpa todas as noites, e ainda assim ter administrado um aparato que, por sua própria natureza, distribui favores, cria dependências e alimenta os que orbitam ao redor do orçamento público. A questão não é o caráter do governante. A questão é a natureza do instrumento que ele empunha.

Mas há algo mais interessante aqui do que a filosofia do poder, e é o calendário. Zema não acorda em abril de 2026 para dar uma declaração sobre corrupção por acidente. Ele se posiciona. O mercado eleitoral brasileiro tem uma janela específica onde a diferenciação de marca precisa acontecer, e "direita sem corrupção" é um slogan que ataca simultaneamente o PT pelo flanco histórico e o bolsonarismo pelo flanco recente, sem precisar nomear nenhum dos dois. É cirúrgico. É eficiente. É, em alguma medida, admirável na sua desfaçatez técnica. O problema é que o eleitor que compra esse produto não está comprando uma filosofia de governo; está comprando um atestado de idoneidade emitido pelo próprio candidato. E atestado de idoneidade emitido pelo próprio réu tem valor jurídico próximo de zero.

O ponto que ninguém na cobertura política quer tocar é este: não existe direita "sem corrupção" enquanto existir um Estado com poder de distribuir arbitrariamente recursos, contratos, isenções e penalidades. A corrupção não é ideológica; ela acompanha o poder como a sombra acompanha o corpo. Governos de direita, de esquerda, de centro, tecnocráticos, militares, civis, democratas e autocratas produziram fisiologismo e desvio em proporção direta ao tamanho do Estado que controlavam. A variável não é a honestidade do gestor. A variável é o tamanho do bolo que ele corta. Enquanto o bolo for grande o suficiente para justificar o esforço de corromper, haverá quem corrompa. Zema pode ser a exceção que confirma a regra ou pode ser simplesmente o próximo da fila. Mas enquanto o bolo existir, a fila não acaba.

No fim, a retórica do político "diferente" é o produto mais antigo do mercado eleitoral. Vende bem na entrada, perece rápido na prateleira. Roma conheceu seus Catões, a Primeira República teve seus moralistas, a redemocratização produziu sua geração de salvadores. O padrão se repete com a precisão de um metrônomo: o outsider chega, a máquina o recebe, a máquina continua. Quem paga é sempre o mesmo. Quem recebe muda de nome a cada quatro anos.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.