O fato é prosaico e por isso mesmo delicioso. Um ex governador resolveu dizer, com todas as letras, que a maneira de falar de certo ministro da mais alta corte do país lembra um personagem de programa de auditório dos anos noventa, aquele deputado fictício de terno largo e retórica empolada que arrancava gargalhadas justamente por imitar o tipo do parlamentar pomposo que não diz absolutamente nada em trezentas palavras. A comparação pegou porque é exata. E é exata porque a realidade vinha implorando há anos para que alguém tivesse a coragem de apontar o óbvio.
Há uma regra antiga e nunca revogada que diz o seguinte: se a forma de uma coisa coincide com a forma de outra, e a função também coincide, então provavelmente são a mesma coisa. O personagem de auditório existia para satirizar o político brasileiro genérico, aquele que fala bonito, gesticula com solenidade, invoca a Pátria, cita latim mal traduzido e termina o discurso sem ter dito nada que comprometa o salário do mês seguinte. Quando um ministro vitalício, com poder de cassar mandatos e revisar Constituições, adota exatamente esse mesmo registro, a única conclusão honesta é que a sátira virou documentário e o documentário virou jurisprudência.
O incômodo causado pela comparação revela mais do que qualquer auditoria. Reis nus sempre se ofendem quando uma criança aponta. A toga, afinal, é uma fantasia caríssima, custeada pelo contribuinte que trabalha onze meses por ano para sustentar quem trabalha quatro, e a fantasia só funciona enquanto ninguém ri. No instante em que alguém ri, o feitiço quebra. Por isso a casta togada reage à piada com a mesma fúria com que reagiria a um processo de impeachment, porque sabe perfeitamente que a piada é mais perigosa. Processo a corporação engaveta. Apelido pega.
Vale lembrar quem paga essa ópera bufa. O salário do ministro, os assessores, o motorista, o avião, a aposentadoria majorada, o auxílio moradia para quem tem três imóveis, o auxílio paletó, o auxílio livro, o auxílio respirar saem todos do mesmo lugar: do bolso do sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus e não tem direito nem a reclamar do trânsito sem ser acusado de atentar contra as instituições. A solenidade do palco togado é financiada compulsoriamente por uma plateia que nem tem direito de vaiar. É circo pago à força, com ingresso no boleto do IPTU.
O detalhe saboroso é que a comparação com o personagem cômico foi generosa. O personagem original era inofensivo, fazia rir e ia embora ao fim do programa. O original togado fica, decide, legisla por canetada, prende, solta, anula eleição, recria eleição, e ainda dá entrevista explicando por que a democracia depende de que ninguém o contrarie. Se houvesse justiça poética, o personagem fictício deveria processar por difamação, porque a comparação suja o currículo dele, não o do ministro.
No fim das contas, o episódio tem uma utilidade pedagógica imensa, dessas que nenhum curso de direito constitucional oferece. Ensina que a autoridade só existe enquanto se acredita nela, e que a crença depende de uma encenação contínua de gravidade. Basta um deboche bem colocado para que o cidadão comum perceba que aquele senhor de toga preta, voz cavernosa e latim de almanaque é, estruturalmente, a mesma figura caricata que fazia a vovó rir na tarde de sábado. A diferença é o preço do ingresso, e o ingresso, repito, vem descontado em folha.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.