O anúncio veio com a pompa de costume. O Comando Militar dos Estados Unidos para a África informou, com aquela solenidade burocrática que disfarça mal a propaganda, que Abu-Bilal al-Minuki, segundo na hierarquia global do Estado Islâmico, foi neutralizado em ação conjunta com forças nigerianas. Outros líderes do grupo, diz a nota, também caíram. Aplausos no Pentágono, manchetes obedientes mundo afora, e a sensação, sempre renovada, de que a guerra ao terror finalmente está virando a chave. Pena que essa chave gira em falso desde 2001.

Faça o exercício simples, daqueles que qualquer pessoa com uma calculadora e memória mediana consegue executar. Conte quantos "números dois" do Estado Islâmico, da Al-Qaeda, do Boko Haram e congêneres foram mortos pelas forças americanas nas últimas duas décadas. O cálculo conservador passa de cem. Cem segundos no comando, cem braços direitos, cem mentes operacionais. Se a aritmética da propaganda fosse honesta, o terrorismo islâmico já teria sido extinto três vezes. Mas a hidra mitológica é amadora perto da realidade contemporânea: cortam uma cabeça, nascem duas, e o orçamento militar floresce.

Aí está o ponto que ninguém quer enxergar, porque enxergar dói no bolso de muita gente importante. Quem ganha com a perpetuidade do inimigo conveniente? A indústria armamentista, que fatura bilhões anuais alimentando o ciclo. Os contratos de logística e segurança privada, que transformaram o Sahel numa filial particular. As burocracias militares, que justificam orçamentos crescentes invocando ameaças que elas mesmas se mostram incapazes de erradicar. Os governos locais, africanos sobretudo, que recebem assistência militar generosa enquanto o inimigo, oportunamente, permanece vivo o suficiente para justificar a próxima parcela. O contribuinte americano paga, o contribuinte nigeriano paga, e no fim da cadeia alguém recebe. Sempre alguém recebe.

A lógica é elementar e por isso mesmo invisível. Se um açougueiro fosse contratado para acabar com a fome do bairro e, ao cabo de vinte anos, o bairro continuasse faminto enquanto o açougueiro andava de carro novo, ninguém precisaria de doutorado em economia para suspeitar da relação contratual. Pois é exatamente esse o arranjo. O combate ao terror produziu mais terror, espalhou-se da Mesopotâmia ao Sahel, multiplicou facções, e nesse percurso ergueu uma das maiores transferências de riqueza do contribuinte para o complexo militar-industrial já vistas na história. As coisas são o que são, não o que o porta-voz uniformizado diz que são.

Note também a coreografia. O anúncio sai num momento conveniente, encaixado em narrativa maior sobre presença americana na África, sobre a disputa com a China pelo continente, sobre justificar bases, drones, treinamento, dinheiro. O cadáver de Abu-Bilal é, antes de tudo, um instrumento retórico. Serve para mostrar resultado, alimentar manchete, encerrar ciclo de cobertura crítica e abrir novo pacote orçamentário. O homem morreu, sim. O esquema que se beneficia de mortes como a dele continua vivíssimo, gozando de saúde de ferro e de imunidade política completa.

Enquanto isso, no interior da Nigéria, aldeias seguem queimadas, meninas seguem sequestradas, e a população, essa sim verdadeiramente paga a conta, sem direito a coletiva de imprensa. O império bombardeia, o governo local agradece, a imprensa global aplaude, e o problema, milagrosamente, nunca acaba. Talvez porque acabar com o problema seja, para quem manda, o pior dos cenários possíveis. Quem paga continua sendo o pobre coitado que enche um tanque de gasolina ou recebe um contracheque mutilado pelo imposto. Quem recebe continua sendo o de sempre, sorrindo discretamente atrás do brasão oficial.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.