Existe uma indústria inteira vivendo da sua insatisfação com nove metros quadrados de azulejo. Revistas, influenciadores de marcenaria planejada, arquitetos que cobram por hora de prancheta, lojas de utilidades domésticas que reinventam o escorredor de pratos a cada estação, todos prosperam quando você acredita que a cozinha apertada precisa de intervenção cirúrgica orçada em cinco dígitos. A verdade, que ninguém vai colocar no Instagram porque não vende nada, é mais humilhante: na maioria dos casos, o problema não está no tamanho, está no arranjo. E arranjo é grátis.
Bancada entulhada de liquidificador que ninguém usa desde o segundo mandato do Lula, luminária amarelada de quarenta watts pendurada no centro do teto como se fosse 1978, armário superior engolindo louça de casamento que ninguém vai inaugurar nunca, eis o trio que cria a sensação de claustrofobia. O sujeito olha aquilo, sente o aperto, e em vez de fazer o óbvio, que é jogar fora o que não serve, ele chama um especialista para lhe vender a solução que o problema sequer pediu. Cobra por metro linear de MDF o que custaria meia tarde de faxina racional.
O truque dos grandes empreendimentos imobiliários, aliás, é exatamente esse: vender apartamento minúsculo com foto de cozinha milimetricamente vazia, e depois deixar você descobrir, na vida real, que três panelas e um micro-ondas transformam o espaço em vagão de metrô na hora do rush. Some a isso a luz fria mal posicionada, capaz de fazer uma cozinha de hospital parecer aconchegante por comparação, e está armado o cenário perfeito para o consumo compulsivo de organizadores acrílicos vendidos como milagre escandinavo a preço de relíquia.
A solução, quando se olha sem o filtro do marketing, é constrangedoramente simples. Iluminação distribuída em pontos de trabalho, não uma lâmpada solitária jogando sombra no próprio rosto de quem pica cebola. Bancada respirando, com no máximo dois utensílios à vista, porque tudo o que está visível ocupa não só espaço físico mas espaço mental. Armazenamento vertical, aproveitando a parede que ninguém olha, em vez de espremer mais um nicho horizontal que vai virar depósito de tampa órfã de pote.
O fato é que o brasileiro foi treinado a confundir consumo com solução. Cada irritação cotidiana virou pretexto para uma compra, cada compra virou pretexto para uma reforma, cada reforma virou pretexto para o financiamento de quarenta e oito vezes que paga juros equivalentes ao valor original do imóvel. Enquanto isso, a velha sabedoria de avó, aquela de não acumular tranqueira e manter cada coisa no seu lugar, dorme esquecida no porão da memória, porque não rende comissão para ninguém. Resolver dá menos lucro do que vender a ilusão de que só profissional resolve.
Olhe para a sua cozinha hoje à noite. Faça o inventário honesto. Quantos objetos sobre a bancada você usou na última semana? Quantos itens no armário você sequer lembrava que tinha? A resposta vai doer, mas o conserto não passa de um saco de lixo, uma lâmpada nova e duas horas de coragem. Quem ganha quando você acredita no contrário? A pergunta responde sozinha, basta olhar quem financia as revistas de decoração.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.