Quando Margaret Thatcher assumiu o governo britânico em 1979, a Grã-Bretanha não estava em crise. A Grã-Bretanha era a crise. Inflação em dois dígitos, sindicatos que derrubavam primeiro-ministros como quem troca de camisa, indústrias nacionalizadas que consumiam impostos e produziam prejuízo com a regularidade de um relógio suíço quebrado. O Estado havia penetrado em cada articulação da economia como água em alvenaria velha, e a classe intelectual chamava isso de progresso. O consenso era quase total: a mistura de keynesianismo social-democrata que prevalecia desde o pós-guerra era o único caminho possível, a alternativa era barbárie, e quem discordasse estava provavelmente a serviço do capital. Pois bem.
Thatcher discordou. E a primeira coisa que ela fez não foi montar um comitê de especialistas para estudar o problema durante dezoito meses: ela agiu. Privatizou indústrias que o Estado havia transformado em cemitérios de produtividade. Enfrentou a greve dos mineiros com a firmeza de quem entende que ceder ao chantage coletivo não é compaixão, é apenas adiar o colapso com juros. Cortou gastos onde era politicamente impopular cortá-los. Derrubou a inflação não com controle de preços, não com tabelamento, não com decretos de congelamento que só funcionam no papel e na imaginação de quem nunca estudou por que o papel-moeda existe. Derrubou a inflação controlando a expansão monetária, porque inflação não é fenômeno climático, não é culpa das empresas gananciosas, não é resultado do petróleo caro. É resultado de governos que gastam mais do que arrecadam e mandam a conta para a impressora.
O que os críticos chamam de "crueldade thatcheriana" merece ser examinado com mais cuidado, porque por baixo do jargão sentimental há uma contabilidade concreta que ninguém gosta de fazer. Cada mineradora estatal preservada significava impostos arrancados de trabalhadores do setor privado para subsidiar empregos que o mercado já havia declarado inviáveis. Cada sindicato que mantinha salários artificialmente inflados num setor destruía silenciosamente vagas em outro. Cada libra gasta para evitar o ajuste inevitável era uma libra que não financiaria a recuperação futura. O custo visível das reformas era real, doloroso e fotografável. O custo invisível do status quo jamais apareceu nos jornais, porque o desemprego que não acontece, a empresa que não foi fundada e o trabalhador que não encontrou oportunidade não geram manchete. Mas eles existem, estão lá, e alguém sempre paga.
Havia também uma dimensão que vai além da economia técnica, e que seus críticos nunca entendem porque se recusam a enxergá-la. A Grã-Bretanha do pré-Thatcher não estava apenas economicamente falida: estava moralmente falida. Havia se acostumado à ideia de que o Estado poderia e deveria resolver tudo, de que nenhuma indústria podia fechar mesmo que não produzisse nada útil, de que o conforto do presente valia qualquer dívida no futuro, e de que quem ousasse questionar esse arranjo era inimigo do povo. É o que acontece quando uma geração inteira aprende a viver na dependência e chama isso de direito adquirido. Thatcher entendeu que recuperar uma economia sem recuperar o caráter de um povo é trabalho pela metade. "A economia é o método; o objetivo é mudar a alma" são palavras dela. Poucos políticos do século XX tiveram a coragem de dizer algo tão verdadeiro e tão impopular no mesmo fôlego.
O legado que ela deixou ainda é contestado pelos mesmos tipos que a combateram em vida: os gerentes de sindicato que perderam poder, os burocratas que perderam emprego, os intelectuais que perderam a narrativa. O argumento deles nunca mudou muito, apenas atualizou o vocabulário. Antes chamavam de "imperialismo do capital"; hoje chamam de "neoliberalismo". O nome muda, a recusa em olhar para os resultados permanece. A Grã-Bretanha de 1990 era incomparavelmente mais próspera, mais dinâmica e mais livre do que a Grã-Bretanha de 1979. Este é o fato que não se contesta com teoria. Contesta-se apenas com silêncio ou com a mudança de assunto que todo derrotado domina.
Thatcher não foi perfeita. Nenhum estadista é, e exigir perfeição dos que agem é o privilégio confortável dos que nunca precisaram decidir nada. Mas foi algo mais raro do que perfeição: foi honesta sobre o preço do que precisava ser feito, corajosa para fazê-lo de qualquer forma e capaz de articular, com clareza que envergonha gerações inteiras de tecnocratas, por que a liberdade econômica não é um luxo reservado aos ricos, mas a única estrutura que permite que os pobres deixem de sê-lo. Em tempos em que o mundo nos oferece a escolha entre o estatismo confessado e o estatismo com marketing de mercado, lembrar de Thatcher não é exercício de nostalgia. É um ato de resistência.
Com informações da Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.