Milan Kundera nasceu num primeiro de abril, e há nisso uma ironia que ele teria apreciado. Porque a maior piada da sua vida foi ser lido com admiração reverencial por exatamente aquele tipo de intelectual parisiense que votava, assinava manifestos e brindava com champanhe em nome do mesmo sistema que o perseguiu, censurou e expulsou da Checoslováquia. A Europa que o acolheu em exílio foi a mesma que, por décadas, tratou como "desvio de percurso" o que Kundera tratou como realidade nua: o socialismo real não é uma boa ideia mal executada. É uma má ideia bem executada.
Há um princípio que os literatos raramente entendem: quando não existem preços livres, não existe informação. Quando não existe informação, não existe escolha. Quando não existe escolha, não existe pessoa, existe apenas a massa que o planejador imaginou. Kundera entendeu isso não nos livros de teoria, mas nos corredores da burocracia tcheca, nas reuniões do partido onde a realidade era redefinida por decreto, no momento em que descobriu que sua ficha de filiação valia mais do que seu talento. O controle econômico e o controle cultural são a mesma coisa com roupas diferentes. Quem controla o pão controla a palavra. Quem controla a palavra controla a memória. Quem controla a memória controla você.
A leveza que ele explorou em seu romance mais famoso não era metáfora vaga, era diagnóstico preciso. O totalitarismo opera pelo peso insuportável que impõe a cada ato, cada palavra, cada piada. A liberdade começa quando você pode fazer uma piada sem calcular as consequências. E termina quando o Estado decide que certas piadas são crimes. Kundera viveu a transição completa, atravessou a fronteira com a obra na bagagem, e escreveu para quem nunca precisou calcular o custo de um sorriso errado. O paradoxo é que a obra chegou intacta e a lição foi extraviada na alfândega.
Existe uma categoria de pessoa que lê a crítica ao totalitarismo como se fosse romance histórico, algo que aconteceu lá, naquele tempo, com aquelas pessoas, uma curiosidade arqueológica. Esses leitores existem em abundância nas redações, nas universidades e nos ministérios do mundo inteiro. São os mesmos que hoje defendem "narrativas reguladas", "plataformas moderadas", "desinformação combatida", sempre com as melhores intenções, sempre para "proteger a democracia", sempre convencidos de que desta vez a censura está do lado certo. Kundera escreveu sobre eles. Não como personagens secundários. Como o problema central.
A sabedoria que se celebra nesta data não é sabedoria literária, é sabedoria política no sentido mais antigo e mais exigente da palavra. A capacidade de ver o poder pelo que ele é, não pelo que promete. De entender que a corrupção do Estado começa pela corrupção da linguagem. Que a propaganda não convence quem discorda, ela infantiliza quem concorda, até que o concordante não saiba mais pensar sem ela. Kundera viu isso de perto, pagou o preço pessoal e deixou o registro. O mínimo que se pode fazer é ler o registro com honestidade.
Ele morreu em 2023. A Checoslováquia que o formou não existe mais. O socialismo que o expulsou foi ao museu. E os intelectuais que aplaudiram a obra enquanto financiavam o regime já escreveram as memórias, ganharam os prêmios e foram devidamente esquecidos. Ficou Kundera. Ficou a literatura. Ficou a lição que ninguém quis aprender: a liberdade não é o estado natural das coisas, é uma conquista frágil, permanentemente ameaçada por quem se apresenta como seu guardião. E quando você deixa o guardião definir o que a liberdade significa, já perdeu.
Com informações da Instituto Liberal. A análise e opinião são do O Algoz.