Abriram um poço de quinze metros em Saqqara, retiraram a tampa de um sarcófago de calcário lacrado desde o reinado de uma dinastia que antecede a invenção da roda de oleiro em meio mundo, e lá dentro estava ele, Hekashepes, embrulhado em ouro como um panetone italiano em véspera de Natal. A imprensa internacional, sempre pronta a se ajoelhar diante de qualquer coisa que brilhe, gastou parágrafos descrevendo o esplendor da peça. Ninguém quis fazer a pergunta óbvia, aquela que qualquer camponês do delta do Nilo faria se tivesse tempo de respirar entre uma colheita confiscada e outra: de onde veio esse ouro todo, e por que diabos um funcionário está enterrado vestido de cofre?

Porque Hekashepes não era faraó. Não era da família real, não era sacerdote de primeira linhagem, não era nada que justificasse, numa lógica minimamente decente, o tratamento póstumo de divindade. Era, segundo os próprios egiptólogos confessam quando ninguém da imprensa cultural está olhando, um inspetor, um supervisor, um administrador. Em linguagem moderna, um cargo de confiança. Em linguagem rothbardiana, embora a expressão ainda não existisse no Império Antigo, um intermediário entre o produtor do trigo e o aparato que o engolia. E como todo bom intermediário institucional, soube reter para si uma fatia generosa daquilo que apenas atravessava suas mãos.

Há quem ache, ingênuo de uma ingenuidade quase comovente, que a corrupção das castas administrativas seja uma invenção da modernidade, uma deformação do capitalismo tardio, uma jabuticaba brasileira que floresceria apenas em Brasília. Engano supino. A tumba de Hekashepes, esse pequeno burocrata enfeitado como rei, é a prova arqueológica de que o esquema é tão antigo quanto a primeira coleta organizada de impostos. Onde houver um Estado capaz de extrair compulsoriamente o produto do trabalho alheio, haverá um funcionário capaz de desviar uma parte para si, e haverá uma teologia oficial para explicar que aquilo é justo, sagrado, necessário, e que questionar é pecado contra os deuses ou, na versão contemporânea, contra a democracia.

O ouro que cobre o defunto saiu de algum lugar. Não brotou da areia, não desceu do céu numa chuva mineralógica. Foi arrancado de minas onde escravos morriam por silicose, foi fundido em oficinas onde artesãos trabalhavam por uma ração de cevada, foi entregue ao tesouro do faraó como tributo de províncias inteiras, e em algum ponto da cadeia, naquele momento mágico em que a riqueza passa do produtor para o cofre estatal e dali para a destinação oficial, uma quantidade respeitável fez um desvio sutil para a parede da tumba do supervisor. O esquema é tão elegante na sua simplicidade que se mantém em pé há quarenta e três séculos, com pequenas adaptações de figurino. Antes era ouro laminado em sarcófago, hoje é apartamento em Miami registrado no nome da sogra.

O fascínio que esses achados despertam diz mais sobre nós do que sobre eles. Um povo educado para reverenciar o poder treme de admiração diante das relíquias do poder antigo, sem perceber que está admirando exatamente aquilo que o esmaga no presente. A múmia dourada não é uma maravilha da civilização, é o registro material de uma extorsão milenar, o recibo que sobrou de uma transferência involuntária de riqueza. Se um arqueólogo do ano 6.000 abrir um cofre forrado de mármore em algum cemitério de capital republicana e encontrar relógios suíços, lingotes e dólares plastificados num caixão de mogno, vai ter exatamente a mesma reação solene. E estará, exatamente como nós agora, diante do mesmo crime de sempre, apenas com figurino atualizado.

Quem pagou pelo ouro de Hekashepes está há quatro mil anos virando pó anônimo numa vala comum do deserto, sem nome, sem tumba, sem visitação turística. Quem recebeu está em vitrine refrigerada, com legenda em três idiomas e fila de admiradores pagando ingresso para contemplar o seu esplendor. A história, essa velha senhora cínica, costuma terminar assim. E continua terminando assim toda quinta-feira, quando o contracheque do produtor desce com desconto e o do funcionário sobe com bônus de produtividade.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.