A ação da Ormat Technologies, empresa ítalo-americana-israelense que transforma calor geotérmico em eletricidade, fechou em US$ 138,53, máxima histórica desde que existe pregão para contar a história. Não é bolha de inteligência artificial, não é meme stock, não é hype de criptoativo lastreado em vento. É vapor saindo de poço furado no chão, girando turbina, virando megawatt, virando dividendo. Tecnologia que existe desde que romano descobriu termas, refinada por engenheiros que ninguém entrevista no Fantástico, gerando retorno consistente enquanto fundo soberano nórdico engorda com o cupom.

Quer dizer, o planeta está aquecendo segundo o coro oficial, mas o calor que vem de baixo, esse confiável, perene, disponível em quantidades industriais, continua tratado como exotismo de revista científica. A Ormat opera no Quênia, nas Filipinas, na Indonésia, na Califórnia, em Honduras. Países que entenderam que energia firme não brota de painel solar nublado nem de cata vento parado, brota de geologia. E o Brasil, sentado sobre uma das maiores reservas de aquífero quente do planeta, com gradiente geotérmico mapeado desde os anos 70 pela Petrobras quando a Petrobras ainda fazia geologia em vez de fazer marketing, segue importando turbina chinesa para complementar usina térmica a diesel em sistema isolado da Amazônia.

Olha, siga o dinheiro e a história se conta sozinha. Quem ganha com energia geotérmica nacional? Ninguém com lobby em Brasília. Quem ganha com a manutenção do sistema atual, baseado em hidrelétrica capturada por contratos de longo prazo, em térmica acionada por decreto na seca, em subsídio cruzado para fonte intermitente que precisa de back up fóssil? Toda a fauna de empreiteira reciclada em geradora, de fundo de pensão estatal com participação em distribuidora, de consultoria que vive de elaborar parecer favorável ao próximo leilão. O setor elétrico brasileiro é o caso de estudo perfeito do que acontece quando se confunde planejamento com captura, segurança energética com reserva de mercado, e transição com transferência de renda.

Me diz uma coisa, por que uma empresa que vende vapor da Terra negociada em Nova Iorque vale quase oito bilhões de dólares, e nenhum brasileiro com capital, conhecimento técnico e jazida disponível conseguiu replicar o modelo no Nordeste, no Pantanal, no chapadão central? Porque a resposta não está na geologia, está na regulação. Está no licenciamento que leva oito anos para uma pequena central, na ANEEL que pede dezenove estudos prévios para o que o IBAMA depois reprova por motivo distinto, no contrato de concessão que premia quem está dentro e pune quem chega. O empreendedor que tentaria furar o primeiro poço geotérmico comercial no Brasil precisaria de mais advogado que engenheiro. E é exatamente esse o ponto do arranjo.

O que se vê é o gráfico bonito da Ormat subindo, o investidor estrangeiro feliz, o relatório de sustentabilidade premiado. O que não se vê é o engenheiro brasileiro que estudou geotermia em Stanford voltando para dar aula em federal sucateada porque empresa não contrata, é o capital privado que iria para o subsolo nacional indo para fundo imobiliário de galpão logístico porque rende mais com menos risco regulatório, é a conta de luz subindo todo ano para pagar a ineficiência do que existe enquanto o que poderia existir nunca sai do papel. A energia mais barata do mundo é a que nunca foi proibida de nascer.

E ainda dizem, com cara séria em horário nobre, que o problema do Brasil é falta de investimento em transição energética. O problema do Brasil não é falta de investimento, é excesso de tutela. Não é escassez de tecnologia, é abundância de regulador. Não é ausência de recurso natural, é presença sufocante de gente que vive de dificultar o acesso a ele. Enquanto isso, a ação sobe em Nova Iorque, o dividendo cai na conta de quem confiou no vapor, e nós seguimos achando que a culpa é da chuva que não veio. A Terra está quente embaixo de nós, e nós congelados em cima do conselho de administração da estatal.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.