A cena foi quase cômica em sua perfeição cinematográfica. Milhares de manifestantes reunidos sob bandeiras de São Jorge, prontos para a liturgia habitual contra o estrangeiro, contra o muçulmano, contra o refugiado que supostamente engole os empregos e os hospitais da velha Inglaterra. E então, no meio do palanque improvisado, um telão gigantesco contrabandeado por ativistas começa a despejar mensagens favoráveis à imigração diante de rostos que oscilavam entre o estupor e a fúria impotente. O coletivo Led By Donkeys, especializado em humilhar publicamente a classe política britânica desde o Brexit, acertou outra vez no nervo exposto da nação.
O detalhe que ninguém quer discutir, porém, está abaixo do espetáculo. A direita raivosa do Reino Unido foi convencida, depois de uma década de austeridade implacável, de que a culpa pelos hospitais entupidos, pelas filas do NHS, pelas escolas precárias e pelos aluguéis impagáveis é do sírio que atravessou o Canal num bote inflável. Não é dos bancos resgatados com dinheiro público em 2008. Não é dos contratos bilionários da BAE Systems vendendo armas para a Arábia Saudita bombardear o Iêmen, criando, aliás, parte dos refugiados que depois batem na porta de Dover. Não é do imposto sobre o trabalhador comum subsidiando aventuras militares de Londres ao Afeganistão. A culpa, claro, é do garçom afegão.
É uma engenharia de raiva tão antiga quanto eficaz. Roma fazia o mesmo quando precisava distrair o plebeu empobrecido pela inflação dos denários: oferecia um bárbaro para xingar no Coliseu enquanto o senador embolsava as terras confiscadas. A receita atravessou séculos sem perder a potência. Quanto mais o salário real britânico encolhe, quanto mais o imposto sobe, quanto mais o aluguel em Londres se torna privilégio de oligarcas russos e fundos soberanos do Golfo, mais alto precisa gritar o populista de plantão contra o imigrante. O truque funciona porque é barato. Contratar um xenófobo de microfone custa infinitamente menos do que confrontar o cartel financeiro da City.
O paradoxo gourmet desse comício é que os mesmos políticos que acendem o fósforo da paranoia migratória são acionistas, consultores ou ex-ministros das mesmíssimas empresas que lucram com as guerras geradoras de refugiados. O ciclo é uma máquina perfeita: vende-se míssil para devastar a Líbia, devasta-se a Líbia, fogem milhões de líbios, chegam alguns milhares à costa inglesa, e então surge o salvador nacionalista prometendo proteger o povo do invasor que ele mesmo ajudou a produzir. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais perversa, terceirizando a indignação para que ninguém olhe para o contrato.
O ativista que infiltrou o telão entendeu algo que escapa ao debate público britânico: o sírio fugindo da bomba e o operário inglês esmagado pelo custo de vida são vítimas do mesmo sistema, apenas em pontas diferentes da esteira. Um produz o refugiado, o outro produz o votante revoltado, e ambos enriquecem o mesmo conjunto restrito de acionistas, lobistas e burocratas. Pôr os dois para se digladiarem na rua é a obra-prima da distração organizada. Enquanto o pobre nativo odeia o pobre estrangeiro, o rico continua imune, festejando em mansões de Mayfair compradas com dinheiro que nunca pagou imposto em lugar algum.
A bandeira sobe, o hino toca, o coro grita contra o invasor, e ninguém olha para cima onde o verdadeiro dono do circo conta o dinheiro. O telão pirata durou poucos minutos, mas escancarou o que séculos de propaganda tentam esconder: a fronteira que importa nunca foi geográfica, sempre foi de classe. O resto é teatro pago.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.