Doze corpos no chão de um festival em Ohio, tiros disparados na multidão, sirenes, gritos, e a coreografia previsível das autoridades locais prometendo investigação rigorosa. A cena se repete com a regularidade de um relógio suíço numa nação que se autoproclama farol da civilização, exportadora de democracia, fiadora última da ordem mundial. Enquanto o sangue ainda secava no asfalto de Ohio, o mesmo governo federal estava ocupado assinando pacotes bilionários para conflitos a dez mil quilômetros de distância, prometendo proteger crianças em Kiev, Tel Aviv, Taipé, qualquer lugar menos o quarteirão do contribuinte que paga a conta.
O detalhe que ninguém quer mencionar é aritmético. Cada dólar arrancado do trabalhador de Cleveland, Dayton ou Columbus para financiar a próxima aventura imperial é um dólar que não financia policiamento comunitário, tratamento de saúde mental, infraestrutura urbana. A escolha não é entre canhões e manteiga, é entre canhões para Raytheon e segurança para quem mora a duas quadras do festival. O cálculo é deliberado, porque a manteiga não cota em bolsa e o canhão sim. As ações da Lockheed Martin, da Northrop Grumman, da General Dynamics não sobem com vizinhança pacificada, sobem com a próxima rodada de tensão geopolítica devidamente fabricada por think tanks generosamente financiados pelos mesmos fabricantes de armas.
Há uma ironia histórica brutal nisso. Impérios antigos pelo menos tinham o decoro de proteger o coração de sua civilização enquanto pilhavam as bordas. Roma podia ser cruel nas Gálias, mas as ruas do Aventino eram patrulhadas. O império contemporâneo inverteu a equação, abandonou o cidadão do interior à própria sorte enquanto despeja arsenais em fronteiras alheias, transferindo riqueza real, produzida por mãos calejadas, para o circuito fechado de empreiteiros do Pentágono, lobistas do Beltway e congressistas cujas campanhas são pagas em dólares manchados de pólvora estrangeira.
A narrativa oficial trabalhará as próximas semanas em sua função habitual, escolher entre dois roteiros pré-aprovados, ou a arma ou o atirador, jamais o sistema que financia tanto a violência doméstica quanto a externa com a mesma calculadora. Discutirão calibres, idade do suspeito, motivações ideológicas convenientes para cada lado do espectro, qualquer coisa exceto a pergunta proibida: por que um país que gasta mais em defesa do que os dez seguintes somados não consegue defender um festival de subúrbio. A resposta é incômoda porque expõe a fraude. Aquele orçamento não foi feito para defender ninguém, foi feito para enriquecer alguém.
Enquanto isso, os familiares dos doze feridos começarão a peregrinação que milhões já fizeram antes deles, hospitais privados, contas que não fecham, seguros que negam, advogados que cobram, um Estado pesado o suficiente para vigiar e-mails de qualquer cidadão do planeta mas leve demais para garantir uma ambulância a tempo. O império que promete proteger ucranianos, taiwaneses, israelenses, sul-coreanos, europeus inteiros sob o guarda-chuva nuclear da OTAN, não consegue garantir que uma família volte inteira de um festival num sábado à noite. Talvez porque proteger esses ucranianos custe contratos, e proteger essa família apenas custe vontade política.
O cidadão comum continua sendo a moeda de troca mais barata do mercado político mundial. Paga com impostos quando o governo precisa de dinheiro, paga com inflação quando o governo precisa esconder a dívida, paga com filhos quando o governo precisa de soldados, e agora paga com balas perdidas porque o governo decidiu que sua vida vale menos que um lote de mísseis estacionado num porto báltico. A liberdade que sobrou cabe num caixão de pinho.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.