Há um tipo específico de obscenidade política que só governos imperiais sabem produzir, e ela se manifestou com perfeição cirúrgica nas areias da Normandia. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, postado no mesmo cascalho onde dezenove mil rapazes americanos, britânicos e canadenses foram triturados por metralhadoras MG-42 em junho de 1944, encontrou o momento ideal para equiparar mães sírias com crianças no colo aos batalhões blindados da Wehrmacht. A coreografia foi impecável, o cinismo foi olímpico, e a mensagem foi clara: a memória dos mortos pode ser sequestrada para qualquer pauta doméstica, desde que o orçamento do Pentágono continue intacto.

Convém lembrar o que realmente aconteceu naquela praia, antes que o marketing oficial termine de digerir o cadáver da história. Os soldados que desembarcaram em Omaha não estavam combatendo camponeses famintos atravessando o Mediterrâneo em botes infláveis. Enfrentavam o aparato industrial mais sofisticado de extermínio jamais construído, financiado por uma aliança de bancos alemães, conglomerados químicos e burocratas weimarianos que descobriram, anos antes, que demonizar o estrangeiro era o caminho mais curto para o poder absoluto. A ironia de invocar essa data para atacar imigrantes seria cômica se não fosse rigorosamente trágica.

Mas vamos ao que interessa, porque retórica patriótica é o anestésico que sempre antecede a fatura. Enquanto o discurso falava em invasão de civis desarmados, os contratos do complexo industrial militar americano com a Europa atingiram patamares que envergonhariam os anos mais gordos da Guerra Fria. Lockheed Martin vende F-35 para Berlim, Raytheon empurra sistemas Patriot para Varsóvia, General Dynamics fatura tanques para Bucareste. Cada míssil de cinco milhões de dólares disparado no Leste Europeu é financiado pelo mesmo contribuinte americano cuja paranoia migratória está sendo cuidadosamente cultivada em Omaha Beach. O circuito é fechado, elegante, e perfeitamente lucrativo.

A função política do discurso anti-imigração nunca foi resolver fluxo migratório, coisa que nenhum muro, nenhuma cerca, nenhuma patrulha jamais resolveu na história humana. A função é fabricar inimigo doméstico barato quando o inimigo externo começa a custar caro demais para sustentar narrativamente. Roma fez isso com os bárbaros nas fronteiras quando precisou justificar legiões cada vez mais inchadas. Os impérios ibéricos fizeram com mouros e judeus quando precisavam confiscar patrimônios para financiar guerras dinásticas. O método é ancestral, o roteiro é repetitivo, só mudam os figurinos.

O detalhe que ninguém comenta é a relação direta entre as guerras patrocinadas por Washington e as ondas migratórias que Washington depois condena. Bombardeia-se a Líbia, destrói-se o aparato estatal, libera-se as rotas tribais, e depois finge-se surpresa quando barcos lotados chegam a Lampedusa. Financia-se a guerra na Síria por interpostas pessoas, esvazia-se cidades inteiras, e depois acusa-se a Europa de fraqueza por receber os escombros humanos. Quem produz o refugiado é exatamente quem se beneficia politicamente da xenofobia que o refugiado provoca.

O soldado raso que sangrou em Omaha não morreu para que setenta anos depois um burocrata fardado usasse seu túmulo como palanque eleitoral. Morreu, presumia-se, contra um regime que tratava seres humanos como categorias descartáveis. A profanação é completa, e ela não é acidente retórico, é projeto. Enquanto o cidadão comum aplaude o discurso emocionado nas praias da Normandia, os contratos são assinados em escritórios de Arlington, e a conta, como sempre, chega pelo correio em forma de imposto, inflação e filho enviado para guarnecer base em país cujo nome ele mal sabe pronunciar.

Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.