O palco era o Tribeca Film Festival, vitrine da intelligentsia cultural nova-iorquina, território onde celebridades costumam recitar discursos lacrimosos sobre direitos humanos quando a vítima carrega o passaporte certo. Diante das câmeras, uma influenciadora e um ator transformaram em gracejo os relatos documentados de estupro de prisioneiros palestinos em instalações israelenses, episódios que organizações de direitos humanos vêm catalogando há meses com nomes, datas e laudos médicos. A plateia riu. E nesse riso há mais informação geopolítica do que em mil relatórios do Departamento de Estado.

Existe uma engrenagem invisível que decide quem merece compaixão e quem merece deboche, e essa engrenagem é lubrificada por dinheiro. O mesmo establishment cultural que paralisou Hollywood inteira para denunciar violações sexuais em outros conflitos, que organizou galas, hashtags e camisetas pretas, descobre subitamente o sentido de humor quando a vítima é palestina. Não é hipocrisia espontânea. É hipocrisia patrocinada. Festivais como o Tribeca dependem de uma teia densa de financiadores, fundos de investimento, conglomerados de mídia e doadores cuja agenda política não admite que certas vítimas sejam humanizadas. Humanizar custa caro. Desumanizar é gratuito, e às vezes rende contrato.

A história está cheia de momentos em que a classe artística serviu de relações públicas para violências oficiais. Os cabarés de Berlim nos anos trinta ridicularizaram judeus antes que os trens começassem a partir. Os jornais coloniais britânicos publicavam charges sobre indianos famélicos enquanto os celeiros de Bengala eram esvaziados para alimentar o exército imperial. Em cada império houve um teatro, um cinema, um salão de festas onde a vítima virava piada antes de virar estatística. O esquema funciona porque o riso anestesia. Quem ri de um povo não precisa enxergar o povo. E quem não enxerga não protesta quando o orçamento militar é renovado, quando o embarque de bombas é aprovado no Congresso, quando o veto no Conselho de Segurança protege o ofensor.

Siga o rastro dos contratos. Cada bomba que cai sobre Gaza sai de uma linha de montagem americana, paga com impostos do trabalhador da Pensilvânia que jamais viu um palestino na vida. Cada míssil é uma transferência de renda do contribuinte para o acionista, e o riso da influenciadora no festival é o cimento cultural que sustenta essa transferência. Sem o riso, sem a piada, sem a desumanização cotidiana, o cidadão americano comum começaria a perguntar por que sua aposentadoria está sendo corroída pela inflação enquanto bilhões de dólares atravessam o Atlântico em forma de munição. A piada não é desvio de gosto. É política industrial.

O custo humano dessa engenharia do desprezo não cabe em manchete. São prisioneiros sem julgamento, espancados em galpões improvisados, submetidos a procedimentos que nenhuma convenção sequer ousou nomear até pouco tempo atrás. São famílias do outro lado do mundo que descobrem pela imprensa que o parente desaparecido foi violado por carcereiros uniformizados, financiados por uma aliança militar bilionária. E enquanto isso, no salão climatizado de Manhattan, taças de champanhe sobem ao brinde de uma piada. O contraste não é ironia. É arquitetura de poder. O poder sempre precisou que a vítima parecesse menos gente, e a indústria do entretenimento sempre esteve disponível para o serviço, mediante cachê.

Resta a pergunta incômoda que ninguém faz no microfone: se o estupro de prisioneiros é piada, o que exatamente seria considerado crime nesse novo dicionário moral exportado de Nova York? A resposta é simples e brutal. Crime é tudo aquilo que ameaça o lucro do fornecedor de armas, a reputação do aliado estratégico, o orçamento do Pentágono. O resto é stand-up.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.