Faltando poucos dias para o apito inicial da Copa do Mundo, atletas profissionais finalmente recebem os carimbos que lhes permitem entrar no país-sede. A cena seria cômica se não fosse reveladora. Enquanto famílias inteiras apodrecem em campos de refugiados aguardando documentos que jamais chegarão, jogadores milionários têm seus vistos expedidos em regime de urgência diplomática, porque o espetáculo precisa começar no horário marcado pela emissora que pagou os direitos de transmissão. A fronteira, esse fetiche sagrado do Estado moderno, dobra-se com a flexibilidade de um contorcionista quando o assunto é receita publicitária.

O ritual do visto sempre foi menos sobre segurança e mais sobre controle. O passaporte, invenção relativamente recente na história da humanidade, consolidou-se como instrumento universal apenas após a Primeira Guerra, quando os Estados perceberam que vigiar a movimentação de seres humanos era tão lucrativo quanto vigiar a movimentação de mercadorias. Antes disso, durante séculos, comerciantes, peregrinos e trabalhadores cruzavam continentes inteiros sem precisar pedir licença a um burocrata armado de carimbo. Hoje, a mesma humanidade que colocou homens na Lua precisa de autorização governamental para visitar a avó do outro lado de uma linha imaginária desenhada no mapa por algum diplomata morto há cem anos.

O caso da Copa expõe a hipocrisia em sua forma mais cristalina. Os mesmos governos que pregam controle migratório rigoroso, que constroem muros, que financiam patrulhas marítimas para afundar barcos de famintos no Mediterrâneo, abrem corredores expressos para qualquer pessoa cujo nome esteja vinculado a um contrato da FIFA. Por que? Porque a FIFA movimenta bilhões em direitos de transmissão, em patrocínios de bancos globais, em contratos de construção, em rede hoteleira, em logística aeroportuária. O torcedor europeu que voou em primeira classe para assistir à abertura passou pela imigração em quinze minutos. O sírio que fugiu de bombas fabricadas no mesmo Ocidente que vende ingressos VIP continua trancado na antessala de algum consulado, aguardando há três anos uma resposta que nunca virá.

Siga o dinheiro e tudo se ilumina. As construtoras que erguem os estádios faturam contratos bilionários, frequentemente regados a denúncias de trabalho análogo à escravidão. Os bancos que financiam a infraestrutura ganham juros que sairão do bolso do contribuinte local pelas próximas três gerações. As redes hoteleiras inflacionam diárias em quinhentos por cento durante o evento. Os patrocinadores oficiais, refrigerantes açucarados, fast food cancerígeno e cervejas industriais, transformam a paixão popular em ponto de venda. E quem paga essa festa? O trabalhador que viu seu bairro ser desapropriado, o pequeno comerciante que perdeu o ponto, o aposentado cuja praça virou estacionamento de luxo. A Copa é, antes de qualquer outra coisa, o maior programa de transferência de renda já inventado pela civilização do entretenimento.

O visto expedido em vinte e quatro horas para o craque argentino, italiano ou senegalês prova o que sempre suspeitamos: a soberania nacional, essa entidade mística em nome da qual se justificam guerras e sanções, é mercadoria como qualquer outra, vendida ao melhor lance. Quando o capital fala, o burocrata bate continência. Quando o pobre fala, o burocrata pede mais um formulário, mais uma taxa, mais uma comprovação de vínculo empregatício. A fronteira é uma porta giratória cuja velocidade depende exclusivamente do peso da carteira que se aproxima dela. O resto é discurso para boi dormir em horário nobre.

No fim da história, o futebol continuará sendo a religião planetária e a Copa continuará sendo o seu sacramento mais lucrativo. Os jogadores entrarão em campo cobertos por logotipos de bancos que financiaram regimes assassinos. Os comentaristas falarão de fair play enquanto o suor dos operários mortos na construção dos estádios escorre pelas paredes recém-pintadas. E o torcedor comum, esse personagem trágico que ainda acredita que tudo aquilo é sobre esporte, gritará gol para um espetáculo cujo verdadeiro placar está sendo computado em offshores caribenhas. A bola rola. O dinheiro voa. A liberdade fica de fora do estádio, esperando um visto que nunca chega.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.