O fato é simples, e é justamente a simplicidade dele que incomoda. O ministro Dias Toffoli, membro vitalício do Supremo Tribunal Federal, instituição que se apresenta ao país como o último bastião da legalidade republicana, esteve em Marília, interior de São Paulo, no mesmo período em que uma aeronave ligada à empresa de Daniel Vorcaro, um dos nomes mais pesados do sistema financeiro nacional, realizou o voo Brasília-Marília. Não há, até o momento, nenhuma explicação oficial. Não há nenhuma coincidência inocente quando o personagem central usa toga e o outro usa gravata de seda italiana. O que há é um registro no FlightRadar, uma plataforma de monitoramento de voos que não tem partido, não tem padrinho e não negocia narrativa.

Existe um princípio antigo, anterior a qualquer escola jurídica moderna, que diz que a aparência da justiça é parte da própria justiça. Um juiz que frequenta os mesmos ambientes que os litigantes potenciais de seus processos não precisa ser flagrado assinando um papel comprometedor para que o escândalo exista: o escândalo é o encontro, é a proximidade, é a convivência que deveria ser impossível numa república que se leva a sério. Roma já sabia disso quando organizou seus tribunais. A Venezuela também sabe, só que ao contrário: usa essa promiscuidade como método de governo. A questão que o brasileiro honesto deveria se fazer é: em qual dos dois modelos o STF atual se encaixa melhor?

Daniel Vorcaro não é um empresário qualquer. É o controlador do Banco Master, instituição que esteve no centro de uma das operações financeiras mais polêmicas dos últimos anos, com bilhões em créditos precificados de forma que levantou sobrancelhas em qualquer analista que ainda usa calculadora em vez de comunicado de imprensa. O Banco Master tem, como qualquer banco de seu porte, uma relação intrínseca com o aparato regulatório e judicial do Estado. Decisões do Supremo Tribunal Federal afetam diretamente o ambiente em que instituições financeiras operam, o alcance de investigações, a validade de instrumentos jurídicos, a configuração de precedentes que valem bilhões. Seguir o dinheiro, nesse caso, não é paranoia, é método. É a única ferramenta analítica que nunca mente, porque o dinheiro não tem escrúpulos retóricos.

O que torna o episódio ainda mais indigesto é o silêncio institucional que o envolve. Num país com um mínimo de cultura republicana, a simples divulgação dessa informação pelo O Globo, com respaldo em dados públicos de rastreamento aéreo, seria suficiente para que o ministro em questão se sentasse diante de uma câmera e explicasse, com data, hora e pauta, o motivo de sua presença naquela cidade naquele momento. Em vez disso, o que se tem é o silêncio habitual, o mesmo que acompanha dezenas de episódios semelhantes envolvendo membros da casta judicial brasileira, que aprendeu a tratar a transparência como uma obrigação dos outros. Há impérios que duraram séculos com essa lógica. Nenhum deles terminou bem.

O problema estrutural, contudo, vai além de Toffoli e vai além de Vorcaro. O que esse episódio ilumina, com a frieza clínica de um dado de banco de dados, é a natureza do arranjo de poder que governa o Brasil real. Há uma camada de instituições formais, com nomes pomposos, selos e rituais, e há uma camada de relações efetivas, que se negocia em jatinhos, em finais de semana no interior paulista, em jantares cujas atas nunca são publicadas. A constituição formal de um país é o que está escrito. A constituição real é o que acontece quando os aviões pousam. Enquanto o brasileiro médio paga o carnê do IPVA e teme a Receita Federal, os que interpretam as leis que regulam tudo isso se deslocam em aeronaves particulares para cidades onde, por pura coincidência, também está o dono de um banco sistêmico. Não é uma acusação. É uma descrição. E a diferença entre as duas é exatamente o que o poder estabelecido conta que você não saiba fazer.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.