A cena merece ser emoldurada. Um senador, filho de ex-presidente, sobe ao palanque de outro pré-candidato, num evento de lançamento alheio, e anuncia ao microfone que, em dois dias de pré-campanha presidencial, produziu mais do que vinte anos de governo adversário. Não foram dois meses, não foram duas semanas. Dois dias. A modéstia, como se vê, segue sendo o último dos pecados na política brasileira, logo atrás da coerência e da vergonha alheia.
Convém perguntar, antes de qualquer aplauso ou indignação, o que exatamente foi entregue nessas quarenta e oito horas miraculosas. Hospitais construídos? Tributos abolidos? Ministérios fechados? Servidores demitidos? Subsídios cortados? Privatizações assinadas? Nada disso, evidentemente. O que foi entregue foi o produto de sempre, palanque, abraço, foto, frase de efeito e a promessa tácita de que, desta vez, o mesmo Estado que esmaga o cidadão vai funcionar a favor dele, bastando que o operador da máquina troque de camisa. É o velho truque do feirante que jura que a fruta podre da banca ao lado azedou porque o concorrente é desonesto, enquanto oferece a sua, igualmente murcha, embrulhada em papel mais bonito.
O detalhe que escapa ao auditório entusiasmado é simples e brutal. Quem paga a pré-campanha de quarenta e oito horas, quem paga os vinte anos de gestão adversária, quem paga o palanque, o microfone, o avião, o comício, o santinho, o jingle, o assessor, o motorista e o cafezinho de cortesia é sempre o mesmo sujeito, aquele que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus, paga imposto embutido no pão, no botijão, na conta de luz e na passagem, e ao fim do mês ainda recebe o boleto do carnê com correção monetária. A disputa entre o herdeiro e o ex-metalúrgico não é sobre quem vai libertar esse cidadão. É sobre quem vai administrar a sua servidão com sotaque mais simpático.
A lógica do discurso, aliás, é deliciosa em sua autoderrota. Se foi possível, em dois dias, superar duas décadas inteiras de adversário, então uma de duas coisas é verdadeira. Ou o adversário não fez absolutamente nada em vinte anos, hipótese que desmonta a tese da máquina perigosíssima que precisa ser combatida com urgência existencial, ou o que está sendo entregue agora também não é nada, porque qualquer múltiplo de zero continua sendo zero. Escolha a porta. As duas levam ao mesmo corredor, e no fim do corredor há um espelho.
Há ainda o lugar do anúncio, que diz mais do que o anúncio em si. A frase foi solta no lançamento da pré candidatura de um aliado a um governo estadual, evento alheio, palanque emprestado, holofote tomado. O recado político é límpido, a sucessão familiar está aberta, os herdeiros disputam vaga, e a vitrine se monta onde houver vidro. Sobrenome continua sendo, neste país tropical de instituições molengas, o ativo de capital mais rentável depois do título público. Rende juros sem trabalhar, é negociado em mercado secundário e goza de isenção fiscal sobre a vaidade.
No fim, o eleitor é convidado a escolher entre o time que governou vinte anos sem entregar e o time que promete entregar tudo em dois dias. Os dois falam a mesma língua, a do orçamento alheio. Os dois prometem o mesmo serviço, a administração da sua carteira por mãos mais sábias que as suas. Os dois cobram a mesma taxa, a sua liberdade fatiada em parcelas mensais. E os dois, quando perguntados quem paga a festa, apontam para o teto, para o vizinho, para o passado, para o futuro, para qualquer lugar menos para o espelho do contribuinte, que continua sendo o único patrocinador oficial deste circo que nunca desmonta a lona.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.