Há sempre dois Gazas no noticiário, e curiosamente apenas um deles existe nos cartazes das passeatas. O Gaza fictício, aquele que cabe em hashtag, é uma aquarela de vítimas inocentes esmagadas por um único algoz identificável, conveniente, exportável para qualquer manifestação universitária do hemisfério norte. Já o Gaza real, esse de carne, osso e medo cotidiano, traz uma camada que os ativistas de cabine climatizada se recusam a tocar nem com luva cirúrgica, a saber, as denúncias de abuso sexual e moral cometidos contra a população civil por membros do próprio Hamas, a milícia que governa o território com a delicadeza de um capataz armado.
A organização Jusoo, que recolhe relatos diretamente das vítimas, vem documentando o que a imprensa engajada finge não ver, mulheres assediadas, coagidas, estupradas, famílias humilhadas, dissidentes silenciados pela mesma facção que se vende lá fora como movimento de libertação nacional. É um clássico do gênero, a tirania interna travestida de resistência externa, fenômeno tão velho quanto os jacobinos guilhotinando o vizinho em nome da fraternidade universal. Sempre que um grupo armado se proclama porta voz de um povo, o primeiro povo que ele cala é o que está debaixo do seu próprio cano de fuzil.
Pergunte quem paga e quem recebe nessa encenação humanitária e o roteiro se ilumina como palco de teatro de revista. Quem paga é o contribuinte ocidental, cujos governos transferem bilhões em ajuda que evaporam em túneis, foguetes e contas offshore de dirigentes que moram em Doha com vista para o mar. Quem paga é a moça de Gaza que ousou reclamar de um comandante e amanheceu desaparecida. Quem recebe é a casta política da facção, a indústria internacional do socorro permanente, a ONG que vive do problema e morre da solução, o intelectual de cátedra que reciclou o discurso anticolonial dos anos setenta e agora vende livro em feira literária. A miséria dos outros é, há décadas, um dos mercados mais lucrativos do planeta, e nenhum mercado prospera sem fregueses fiéis.
O silogismo é constrangedor de tão simples. Se um grupo armado controla um território, e se nesse território há denúncias sistemáticas de violência sexual praticada por seus agentes, então esse grupo não é vítima abstrata, é agente concreto de opressão. A conclusão decorre das premissas com a frieza de um teorema, e nenhuma retórica de bandeira drapeada sobre veleiro consegue dissolvê la. Julgar uma facção pelo que ela proclama em comunicado oficial, e não pelo que faz na esquina escura do bairro que domina, é o mesmo erro do camponês que confia no lobo porque o lobo prometeu ser vegetariano a partir de segunda feira.
A flotilha, esse iatismo de consciência limpa, ilustra bem o fenômeno. Não há nela um único pedido de explicação ao Hamas pelas mulheres violentadas, nenhum cartaz exigindo eleições no enclave, nenhuma vigília pelos palestinos executados como colaboracionistas em praça pública. Há, sim, fotografia em alto mar, comunicado pomposo, jornalista embarcado e patrocínio difuso que ninguém pergunta de onde veio. É a velha caridade ostensiva dos fariseus, aquela que precisa de plateia para existir, porque sem câmera o gesto perde a única finalidade que de fato tinha. Indignação seletiva não é compaixão, é commodity, e como toda commodity tem cotação, fornecedor e consumidor final.
Enquanto isso, a mulher anônima de Khan Yunis continua sem voz nos editoriais, sem vigília nas universidades, sem minuto de silêncio nas premiações de cinema. Ela não rende manchete porque seu algoz não cabe no figurino antiocidental que sustenta a indústria. Ela é o palestino que o palestinismo oficial precisa esquecer para continuar faturando. E é nesse esquecimento programado, nessa curadoria moral cuidadosamente editada, que se enxerga a verdade nua do arranjo, o humanitarismo contemporâneo não foi feito para socorrer vítimas, foi feito para escolher quais vítimas é rentável socorrer.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.