Há uma aritmética perversa no orçamento do mundo moderno. O custo de um único míssil de precisão, daqueles que atravessam paredes de concreto armado para liquidar alvos em bairros densamente povoados, financiaria durante décadas um centro como o Al-Noor, onde crianças palestinas cegas aprendem braile, estudam matemática pelo tato e tentam construir alguma noção de futuro dentro de um território que foi sistematicamente reduzido a escombros. A diferença entre as duas cifras não é apenas contábil, é civilizacional. Uma sociedade que prefere produzir o projétil ao invés do professor já respondeu, silenciosamente, à pergunta sobre o tipo de humanidade que deseja ser.
O Al-Noor opera sob a bandeira de uma agência da ONU, e isso significa, na prática, que depende do humor político de chancelarias distantes que tratam a existência de crianças palestinas como linha de negociação orçamentária. Quando é conveniente, cortam o financiamento sob acusações genéricas de infiltração. Quando a pressão internacional aperta, liberam migalhas suficientes para a máquina burocrática continuar girando. As crianças cegas, enquanto isso, seguem cegas, só que agora também com fome, também sem medicamentos, também sem os professores que foram mortos ou deslocados. O humanitarismo contemporâneo funciona por sazonalidade diplomática, igual tarifa aduaneira.
Vale observar quem fatura nessa equação. A indústria que fabrica as bombas que destroem as casas onde essas crianças moravam tem ações negociadas em bolsa, paga dividendos trimestrais, e bate recordes de lucratividade a cada nova escalada no Oriente Médio. Os mesmos conglomerados que equipam um lado do conflito vendem sistemas defensivos ao outro, vendem software de vigilância aos vizinhos, vendem reconstrução de infraestrutura aos organismos multilaterais depois que a destruição termina. É um ciclo integrado de negócios, desenhado para nunca ter fim. A paz seria um desastre para o fluxo de caixa.
Esse padrão não é novidade histórica. Desde que impérios mercantis descobriram que podiam lucrar vendendo pólvora a ambos os lados de uma guerra religiosa europeia no século dezessete, o modelo se aperfeiçoou. Trocaram os arcabuzes por drones, trocaram as colônias por zonas de influência, trocaram a Companhia das Índias por fundos de investimento soberanos, mas a lógica é idêntica. O contribuinte americano, europeu, árabe, todos eles financiam via imposto a destruição de lugares que nunca visitaram, para lucro de acionistas cujos nomes jamais saberão. E no fim da cadeia, uma criança cega em Gaza recebe uma ração a menos porque o pacote de ajuda foi cortado.
O mais obsceno do arranjo é a retórica da compaixão seletiva. A mesma imprensa que se comove com o centro Al-Noor quando a narrativa exige carinho, silencia quando é preciso perguntar quem autorizou o bloqueio que estrangulou a entrada de insumos médicos, quem aprovou as operações militares em bairros residenciais, quem assinou os contratos de exportação de armamento que caiu sobre aquelas casas. A caridade internacional é o curativo que se põe sobre a ferida depois de vender a faca, cobrar pelo hospital e monetizar o documentário. Tudo isso chamado de ordem baseada em regras.
No fim, sobra o indivíduo concreto. O menino que aprendeu a reconhecer a voz da mãe antes de conhecer o próprio rosto, a menina que decorou o caminho até a escola contando os passos e agora não tem mais nem escola nem caminho. Eles não votaram em nenhum parlamento, não assinaram nenhum tratado, não lucraram com nenhum contrato. Pagam, porém, a conta integral de decisões tomadas em capitais onde ninguém sabe o nome deles. Enquanto houver quem lucre com a guerra, haverá quem fabrique a guerra. E enquanto houver criança cega contando passos sobre escombros, alguém, em algum escritório com vista para o rio Potomac ou para o Tâmisa, estará conferindo o balanço trimestral com um sorriso.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.