A cena se repete todo mês com a pontualidade de um relógio suíço avariado. O senhor de setenta e poucos anos acorda às cinco da manhã, pega o ônibus lotado, atravessa a cidade e descobre na porta da agência que o dígito do cartão dele ainda não foi liberado. Volta para casa de mãos vazias, gasta a passagem em dobro, perde o dia. O motivo? Um calendário escalonado que separa os que ganham até um salário mínimo dos demais, distribuindo as migalhas conforme o último número antes do traço, num cronograma que se arrasta da última semana do mês até a primeira do mês seguinte. O cidadão que trabalhou cinquenta anos precisa agora consultar tabela para saber quando pode tocar no próprio dinheiro.

E é exatamente disso que se trata, do próprio dinheiro. Convém lembrar a aritmética que ninguém quer fazer em voz alta. Durante toda a vida produtiva, o trabalhador teve descontado em folha algo entre oito e onze por cento do salário, mais a parte patronal de vinte por cento, que sai do bolso dele também porque é custo da contratação. Some décadas de contribuição, aplique juro composto a qualquer taxa minimamente civilizada, e o resultado seria uma pensão privada que faria o aposentado viajar para a Europa, não pegar fila para sacar um salário mínimo fracionado. A diferença entre o que ele pagou e o que recebe foi para onde?

Foi para o mesmo lugar de sempre. Pagou a folha inchada do servidor que cria o calendário escalonado. Pagou a propaganda institucional que ensina o velho a ler a tabelinha. Pagou as obras superfaturadas, os repasses políticos, as estatais deficitárias, os juros da dívida que o próprio governo emite e o próprio governo compra com o dinheiro que tomou do contribuinte. O sistema funciona como aquelas pirâmides que prendem o sujeito que entrou primeiro, só que com força de lei e monopólio da violência para garantir que ninguém saia. Quem entra hoje paga quem entrou ontem, e reza para que amanhã ainda exista alguém pagando.

O escalonamento por dígito final é a confissão silenciosa do crime. Se houvesse dinheiro, todos receberiam no mesmo dia, como qualquer empresa privada paga seus funcionários. Fraciona-se o pagamento porque o caixa não comporta, porque a previdência opera no fio da navalha, porque o que entra mal cobre o que sai e qualquer concentração de saque colapsaria o teatro. Disfarça-se a insolvência como organização administrativa, vende-se a fila como cronograma, e o aposentado agradece por receber em parcelas o que já era dele.

Repare na inversão semântica, que é onde mora a malandragem. Chamam de benefício o que é restituição parcial de confisco. Chamam de segurado quem foi obrigado por lei a contribuir sob pena de multa. Chamam de calendário o racionamento. A linguagem oficial é cuidadosamente desenhada para fazer o roubado se sentir agraciado, para que ele agradeça a esmola tirada do próprio bolso. E o velho, educado numa escola que ensinou a respeitar a autoridade antes de questioná-la, agradece mesmo, decora o dígito, acorda às cinco da manhã, e ainda diz que graças a Deus o governo lembrou dele.

Quem paga é o trabalhador de cinquenta anos atrás, que entregou um terço do salário acreditando que estava poupando. Quem recebe é a máquina inteira que vive de intermediar essa poupança roubada, do servidor que opera o sistema ao político que promete reformá-lo a cada eleição sem nunca devolver o que tomou. O aposentado é apenas o pretexto, o álibi moral, a figura comovente que justifica a existência do aparato. Enquanto isso, ele consulta a tabela do dígito final e reza para o cartão não dar erro no caixa eletrônico.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.