O USM Alger derrotou o Zamalek e ergueu a taça da Confederação Africana de Futebol numa noite que a imprensa oficial vendeu como epopeia nacional. Ninguém perguntou o óbvio: quem é o dono do clube argelino que acaba de receber um troféu continental como prêmio de consolação pelo silêncio popular diante da inflação, do desemprego e do controle férreo sobre a imprensa local. O USM Alger pertence ao Grupo Serport, conglomerado portuário estatal argelino, o que significa, em linguagem destravada, que o contribuinte argelino acaba de financiar a própria festa sem ser convidado para ela. O cidadão paga o ingresso, paga o salário do jogador, paga o avião do executivo e ainda agradece a glória nacional.
Do outro lado, o Zamalek, clube faraônico que se apresenta como instituição civil mas opera há décadas como apêndice do aparato militar egípcio, cuja sombra se estende sobre cada centímetro produtivo do país do Nilo. Não existe rivalidade esportiva pura entre Argel e Cairo. Existe uma disputa entre dois regimes que descobriram, ainda no século passado, que estádio cheio é parlamento vazio, e que bandeira hasteada em pódio internacional vale mais do que qualquer discurso na televisão estatal. A bola rola, o povo grita, o orçamento sangra em silêncio.
O padrão é antigo e enfadonho de tão repetido. Impérios em decadência sempre transformaram o circo em moeda de legitimidade quando o pão começou a faltar. Roma entendeu isso quando os imperadores passaram a financiar gladiadores com o ouro extraído das províncias saqueadas. Os generais sul-americanos do século passado entenderam quando bancaram seleções de futebol enquanto torturavam dissidentes nos porões. Hoje, regimes do norte da África repetem o roteiro com a mesma cara de pau, trocando apenas a indumentária. O troféu da CAF é o pão e o circo do nosso tempo, embalado em direitos de transmissão milionários vendidos para emissoras que pertencem aos mesmos amigos do regime.
Siga o dinheiro e a coreografia fica nítida. A CAF, presidida por figuras que orbitam interesses petrolíferos do Golfo, distribui patrocínios polpudos vindos de companhias aéreas estatais, bancos vinculados a famílias reais e empresas de telecomunicações que devem favores políticos a vários governos do continente. O esporte profissional africano deixou de ser construído pela base, pela comunidade, pelo torcedor que comprava ingresso com dinheiro próprio. Virou vitrine de soft power financiada por fundos soberanos, lavada por federações opacas, distribuída por intermediários cujos nomes nunca aparecem nas manchetes. O verdadeiro campeão da noite não pisou em campo.
Enquanto o estádio explodia em fogos, o argelino comum continuava enfrentando subsídios cortados, importações restringidas e um dinar que perde valor a cada manhã. O egípcio comum, derrotado no placar, acordaria no dia seguinte ainda devendo ao Fundo Monetário Internacional uma dívida que nenhum gol jamais quitará. Os dois povos foram empurrados para uma rivalidade fabricada enquanto seus governantes posavam juntos para fotos diplomáticas em cúpulas regionais, dividindo contratos de gás, rotas migratórias e acordos militares. A torcida odeia o vizinho que o regime abraça nos bastidores.
No fim, o troféu vai para uma vitrine controlada pelo Estado, o lucro vai para os patrocinadores aliados ao Estado, a glória vai para os burocratas que nunca chutaram uma bola, e a conta, como sempre, vai para o trabalhador que assistiu ao jogo num bar improvisado, bebendo cerveja tributada por um governo que ele não escolheu. O futebol africano produziu mais um campeão. Produziu também mais uma geração de torcedores que confundem bandeira com liberdade.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.