A notícia chega quase como um pedido de desculpas envergonhado, sussurrado em comunicado oficial: a Federação Internacional de Esgrima decidiu que russos e bielorrussos podem, enfim, empunhar o florete sob suas próprias bandeiras. Três anos depois de banir atletas por crimes que não cometeram, em nome de uma guerra que não declararam, contra um inimigo que não escolheram, os burocratas do esporte mundial fingem que nada aconteceu. A pista de esgrima volta a ser pista de esgrima. O atleta volta a ser atleta. E ninguém devolve as medalhas que deixaram de ser disputadas, as carreiras que terminaram antes da hora, os anos de treino jogados no lixo por uma canetada em Lausanne.
Convém lembrar como funcionou o teatro. Em 2022, num espasmo coreografado de virtude, federações esportivas do mundo inteiro descobriram simultaneamente que o esporte era político, que a neutralidade era cumplicidade, que o pódio era trincheira. Curioso que essa epifania moral nunca tenha atingido atletas americanos durante o Iraque, britânicos durante o Afeganistão, franceses durante a Líbia, sauditas durante o Iêmen. A história do olimpismo é a história das exceções convenientes: a bandeira que ofende é sempre a do outro, nunca a de quem patrocina o evento. O boicote seletivo é o esperanto dos covardes.
Por trás de cada banimento esportivo há sempre um contrato. Patrocinadores ocidentais pressionando para limpar a imagem corporativa, emissoras de televisão negociando direitos em mercados específicos, fundos de investimento ligados a fabricantes de equipamentos militares aplaudindo qualquer gesto que reforce o consenso atlântico. O esporte amador, essa ficção romântica, há muito virou braço de marketing geopolítico. Quando a Lockheed e a Raytheon batem recordes de faturamento, é natural que os comitês olímpicos batam continência. A mão invisível do contribuinte ocidental financiou tanques na Ucrânia e, de lambuja, financiou também o silêncio cúmplice das federações.
E o atleta russo, o que fez? Treinou desde os seis anos. Abriu mão de infância, faculdade, vida social, em troca de uma chance de subir num pódio. Não votou em ninguém, não comandou nenhum batalhão, não assinou nenhum decreto. Mas pagou. Pagou com a carreira interrompida no auge, com a aposentadoria antecipada, com o nome apagado do ranking mundial. O mesmo tratamento que se deu, em outros tempos, a artistas alemães em 1945, a músicos cubanos durante o embargo, a cientistas iranianos sob sanção. O Estado erra, o indivíduo sangra. Esta é a única lei consistente da história contemporânea.
O recuo agora, vestido de magnanimidade técnica, denuncia o que sempre foi: pirraça administrativa de elites burocráticas brincando de política externa com a vida alheia. Se o banimento fosse moralmente necessário em 2022, continua sendo em 2026, porque a guerra não acabou. Se deixou de ser necessário, nunca foi. A verdade é mais prosaica: a fadiga sancionatória chegou, o público perdeu o interesse, os patrocinadores calcularam que a ausência russa esvazia a competição, e os mesmos que rasgavam vestes em nome dos valores ocidentais agora rabiscam emendas regulamentares para devolver o que tomaram. A virtude tinha prazo de validade contratual.
Resta a lição de sempre, que ninguém quer aprender. Toda vez que um governo, uma federação, uma organização internacional resolve punir coletivamente um povo pelos atos de seus governantes, está apenas confirmando que considera o indivíduo descartável diante da abstração estatal. O esgrimista russo de 22 anos não causou Bucha nem Mariupol, assim como o engenheiro iraquiano de 1991 não causou o Kuwait. Mas ambos pagaram, e ambos seguirão pagando, enquanto durar a fantasia de que coletivos têm culpa e indivíduos não têm direitos. Devolveram o florete. Não devolveram os anos.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.