A Lennar, gigante americana da construção residencial, aparece nos relatórios financeiros com margens espremidas, estoque inflado e descontos agressivos para mover casas que deveriam estar voando das prateleiras. Os analistas de Wall Street coçam a cabeça e falam em "ciclo desafiador", como se ciclo fosse fenômeno meteorológico que cai do céu sem causa. Não cai. Foi fabricado, parafuso por parafuso, na sala de reuniões do banco central americano que passou anos imprimindo dinheiro como se papel fosse riqueza e agora sobe juros para tentar consertar o estrago que ele próprio causou.

Olha, a história é velha e sempre a mesma. Crédito barato demais por tempo demais empurra capital para onde ele não deveria estar. Construtora vê demanda artificial, comprador vê parcela cabendo no bolso por causa do financiamento subsidiado, banco empresta porque o custo de captação é zero, e todo mundo dança a quadrilha achando que descobriu a fórmula da prosperidade perpétua. Quando o remédio acaba, o paciente descobre que estava dopado, não saudável. A Lennar agora corta preços, oferece taxas subsidiadas pela própria empresa para tapar o buraco que o Fed cavou, e mesmo assim o estoque cresce.

Quer dizer, ninguém pergunta a coisa óbvia. Por que uma economia que é constantemente celebrada como "forte" precisa de juros subsidiados pela construtora para o comprador conseguir fechar negócio? A resposta está no que ninguém quer ver. O preço da casa subiu não porque tijolo virou ouro, mas porque a moeda que mede o tijolo virou confete. O americano médio trabalha mais, ganha nominalmente mais, e mesmo assim a casa fica mais longe. Isto não é falha de mercado. É sucesso do roubo monetário disfarçado de política pública.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Quem ganhou com a década de juros zero? Quem estava perto da impressora. Fundos imobiliários alavancados, private equity comprando bairros inteiros para alugar, construtoras que se endividaram barato e expandiram operação sem disciplina. Quem perdeu? O sujeito que poupou no banco, o aposentado que viu o rendimento real virar negativo, o jovem casal que hoje precisa de duas rendas para pagar o que avô comprou com uma só. A Lennar é vítima e cúmplice ao mesmo tempo, beneficiária do boom e refém do bust que sempre vem depois.

O mais cômico é a narrativa de que o Fed agora "controla" a inflação. Controla coisa nenhuma. Joga o pêndulo de um lado para o outro e chama o estrago intermediário de política monetária. Margem da construtora caindo, estoque subindo, comprador sumindo, isto não é dado econômico isolado. É radiografia de uma economia que foi acostumada a respirar pelo aparelho do crédito artificial e agora descobre que tinha pulmão atrofiado o tempo todo. A correção é dolorosa porque a fraude foi longa.

E vai piorar antes de melhorar, porque a lógica política nunca permite que o ajuste vá até o fim. Já tem gente pedindo corte de juros, estímulo habitacional, programa federal para "ajudar o comprador da primeira casa", que é o nome bonito para mais subsídio, mais dívida pública, mais inflação reprimida que estoura depois. A Lennar vai sobreviver porque é grande, porque tem caixa, porque o governo nunca deixa os grandes quebrarem. Quem não sobrevive é a construtora pequena, o trabalhador da obra, o sonho da casa própria que vira aluguel eterno. O ciclo se completa, a fatura é socializada, e amanhã alguém vai escrever que ninguém viu chegando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.