No clássico deste domingo, o volante André, camisa 49 do Corinthians, foi expulso pelo árbitro de vídeo após reproduzir, com precisão quase didática, o mesmo gesto obsceno que já havia custado a expulsão de Allan em abril. Mesmo gesto, mesmo resultado, mesmo campeonato, jogadores diferentes, consequência idêntica. Qualquer estudante de lógica elementar entenderia que a repetição de uma causa produz a repetição do efeito. Qualquer um, menos, ao que parece, o atleta em questão, que preferiu testar empiricamente uma equação já resolvida.

A questão que ninguém faz, porque no Brasil a pergunta certa é sempre a mais desconfortável, é a seguinte: o que exatamente falhou aqui? O jogador é um adulto profissional, pago em cifras que constrangem a maioria dos trabalhadores brasileiros, inserido numa estrutura de clube com comissão técnica, psicólogos, preparadores e toda sorte de profissionais cujo trabalho consiste precisamente em garantir que o atleta não faça bobagem em campo. E mesmo assim, com o precedente vivo e documentado de abril, com a câmera apontada para todo o gramado, com a carreira e o resultado do jogo em jogo, o homem decidiu que o momento exigia um gesto que a avó dele teria censurado na mesa do jantar.

Mas seria preguiçoso encerrar o raciocínio no indivíduo. O que este episódio expõe, com a clareza brutal dos fatos simples, é uma patologia cultural muito mais antiga do que o futebol profissional. Sociedades que não internalizam consequências produzem indivíduos que não as antecipam. Quando a punição é tardia, errática, negociável e cheia de exceções, ela perde sua função pedagógica e vira apenas mais um inconveniente burocrático. O jovem atleta brasileiro cresce num ambiente em que a regra existe para os outros, em que a impunidade é a norma e a punição é o acidente, e depois todos se espantam quando ele, diante de uma câmera de alta definição transmitindo ao vivo para milhões de pessoas, age como se estivesse num bar às três da manhã.

Há algo quase cômico na simetria do caso. Allan foi expulso. O episódio foi amplamente noticiado, debatido, criticado. A federação tratou o assunto com a gravidade que o protocolo exige. E então veio André, alguns meses depois, e reproduziu a cena com a fidelidade de quem estudou o roteiro. Não é rebeldia, porque rebeldia pressupõe intenção ideológica. Não é coragem, porque coragem pressupõe risco calculado. É simplesmente a ausência de pensamento consequencial, essa capacidade básica de ligar o ponto A ao ponto B antes de agir. Impérios inteiros caíram por menos. Roma não foi saqueada porque os bárbaros eram geniais, foi saqueada porque os romanos pararam de pensar nas consequências de suas próprias escolhas.

O futebol, claro, é entretenimento, e ninguém sensato vai exigir dele a seriedade da filosofia política. Mas o futebol também é um espelho, e às vezes o que o espelho mostra é feio demais para ignorar. Um país que produz esse tipo de comportamento repetitivo, que não consegue transformar punição em aprendizado, que vê o mesmo erro se repetir em ciclos previsíveis sem que nada estrutural mude, esse país está revelando algo sobre si mesmo que vai muito além do campo. A régua moral existe, a câmera existe, a punição existe, e ainda assim o gesto se repete. Quando a consequência não educa, ela apenas envergonha, e mesmo a vergonha, no Brasil, tem prazo de validade curtíssimo.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.